sábado, 24 de abril de 2010

O SETE

Temos de admitir que existe um número que assume declaradamente as suas funções cabalísticas, no exercício que suplanta as suas capacidades aritméticas. É o sete.
É evidente que o número sete nos empolga. Mas também é evidente que nos assusta e nos retrai. E que tudo isto se consuma no silêncio do número atravessado a meio da perna por um hífen e se desenvolve, simultaneamente, num círculo vicioso e numa série de ambiguidades.
Apesar de ser um número primo, não assumo com ele parentesco, nem com o que se lhe segue, que é o 11. Mas tenho de admitir que 7 são as cores do arco-íris e 7 são os dias da semana que se repetem desde o dia em que nasci.
Vejamos as coincidências, todas elas com registo nos livros sagrados:7 anos serviu Jacob a Labão por mor de conseguir a mão de Lia; José, na corte do Faraó, sonhou com 7 vacas magras e 7 vacas gordas (sonho que parece ter também atormentado Guterres e Cavaco); 7 foram as palavras que Jesus pronunciou na cruz, assim como 7 foi o número de quedas a caminho do Gólgota; Deus criou o mundo em seis dias e descansou ao 7º; ainda 7 era o número dos tubos das flautas de Pã e outro tanto o número das cordas da lira tocada pelo deus Apolo. 7 foi o número de casais que Noé escolheu para a arca, sem constar que desses algum fosse “gay”.
Outro tanto, as que respeitam às superstições: 7 é o número de fôlego dos gatos e também 7 é o número de anos de atraso para quem os mata; 7 é o número das chaves que devem guardar os segredos e são tantos como 7 o número de andares do Céu e outros tantos os do Inferno, na crença muçulmana; a Hidra tinha 7 cabeças;7 é igualmente o número de anos que se supõe perdoar a quem rouba ladrão e porventura 7 sejam as ausências de castigo, em tribunal, a quem sequentemente roube.
Ora, 7 são também as obras de misericórdia, assim como 7 são as maravilhas do mundo e, à moda da lusa pátria, as 7 maravilhas naturais de Portugal. São 7 os pecados capitais, mas igual número é o das virtudes humanas e 7 as virtudes cardinais. 7 são os sacramentos, sendo que o sétimo, o matrimónio, anda muito mal tratado. Ainda sob 7 palmos de terra ficam os humanos sepultados, antes, durante ou depois de terem completado, no catálogo de Shakespeare, as 7 idades do Homem. O candelabro judaico tem 7 braços, são 7 as trombetas do Apocalipse, há os 7 castiçais de ouro e as notas musicais são 7 – digam lá: dó, ré, mi ….
Na reliogiosidade cristã, 7 são as Chagas de Cristo, o mesmo número de horas de agonia e 7 as dores de Nossa Senhora e 7 são os dons do Espírito Santo.
Perguntando-se, até, quantas são as colinas de Roma e quantas as de Lisboa, a resposta é idêntica – 7. Plasticamente, assim rodeadas as capitais de dois impérios ( do Romano e do Quinto Império), esta irmandade “colinária” mantém o mito do número, identificando, uma por uma: em Roma, Campidoglio, Quirinale, Viminale, Esquilino, Celio, Aventino e Palatino; em Lisboa, com os santos da terra, S. Jorge, S. Vicente, Santa Ana (não confundir com Santana, que é mais um precipício), Santo André, Chagas, Santa Catarina e S. Roque.
O Carnaval ocorre sempre 7 domingos antes do domingo de Páscoa e 7 eram os sábios da Grécia. 7 anos demorou a construir o templo de Salomão, mas quantos 7 anos multiplicados por outro dígito não tem demorado a construir o Hospital da Guarda?
Na tradição popular infantil, 7 eram os anões que brindaram e recolheram a Branca de Neve, sem esquecer que há um gigante que tem botas de 7 léguas.
Os portugueses navegaram por 7 mares (ora cantados pelo grupo 7ª Legião) para encontrarem as 7 partidas do mundo, no tempo em que os mesmos portugueses, sem número de contribuinte e sem cartão de cidadão, graças à sua virtuosidade e habilidade, eram considerados os homens dos 7 instrumentos. No Brasil, que “descobriram” e que Pero Vaz de Caminha noticiou em 7 folhas, deram o nome de 7 Lagoas ao que é hoje um município do estado de Minas Gerais e é dali a planta medicinal que se chama 7 Sangrias. Nos Açores, irmã em número, a Lagoa das Sete Cidades.
Politicamente falando, Alberto João Jardim apresentou 7 ideias para salvar o PSD nas “Palavras Assinadas”, as quais foram debitadas para salvar o partido.
Pior para o número – e para nós - 7 são os flagelos das nossas carteiras: IVA; IRS; IRC; IMT; IMI; Selo; ISV.
Para que se não diga que o Sete queda na simplicidade deste dígito, miremos os seus múltiplos, como disso é o 21 (7 vezes 3) que nos conduz ao número de projectos que Sócrates assinou como engenheiro na Guarda, em concomitância com a exclusividade de deputado da AR. E 7 terão sido as advertências sobre possíveis sanções disciplinares pela falta de qualidade dos ditos projectos e falta de acompanhamento das obras.
Enfim, deste primeiro ministro também há quem diga (como eu) que pinta o 7 e, para remedar o patrono desta coluna (Gonçalo Anes Bandarra), diria que 7 seria o número ideal de meses para ele continuar a sê-lo. Não porque ele próprio não queira. Ele quer. Mas para que nós não queiramos.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

"O VELHO, O RAPAZ E O BURRO"

Trazia um campónio idoso
Um neto no seu burrinho montado
Entrando assim em Trancoso
Com o rapaz bem refastelado.
O velho às Portas d’El-Rei deu fé
De uns homens a dizerem de tal sorte:
- Olha que tal lei esta é
Trazer montado o rapaz forte
E o velho trôpego a pé!
- Tapemos as bocas do mundo,
Disse o velho: - Rapaz,
Desce do burro num segundo,
E vem caminhando atrás.
Monta-se ele, mas ouve dizer
Umas mulheres ao Pelourinho:
- Isto não se devia ver
O tamanhão do velho no burrinho
E o pobre pequeno a correr!
- Eu me apeio, disse com desdém
O velho de boa-fé,
- Vá o burro sem ninguém
E vamos nós ambos a pé.
Junto ao Palácio Ducal
Na retoma do caminho alguém clama:
- Tolos os dois, para seu mal
Preferem calcar a lama!
De que lhes serve o burrinho?
Dormem com ele na cama?
- Rapaz, disse o velhinho,
Se de irmos a pé murmuram,
Ambos no burro sigamos caminho
A ver se inda nos censuram!
Montam, mas ao Castelo, censura igual:
- Apeiem-se almas de osso!
Querem matar o animal?
Apostamos que não é vosso.
- Vamos ao chão, disse o velho,
Já não sei qu’ei-de fazer!
O mundo está de tal sorte
Que se não pode entender;
É mau se monto no burro
Se o neto monta, mau é,
Se ambos montamos, é mau
E é mau se vamos a pé:
De tudo me têm ralhado
Agora que mais me resta?
Peguemos no burro às costas
Façamos inda mais esta.
Saem de Trancoso, pelo Convento
Livrando-se de algum sussurro
Mas ouvem com grande espavento:
- Doidinhos, tornaram-se burros do burro!
O velho então pára e exclama:
Do que ouço me confundo,
Por mais que a gente se mate
Nunca tapa as bocas do mundo.
Rapaz, vamos como dantes
Sirvam-nos estas lições;
É mais tolo quem dá
Ao mundo satisfações!

domingo, 15 de novembro de 2009

"SERVIRÃO UM SÓ SENHOR" - (Bandarra)




"O procurador e o juiz de Aveiro que estão à frente do caso Face Oculta queriam que José Sócrates fosse investigado pelo crime de atentado contra o Estado de Direito. Mas o Procurador-geral considerou não haver indícios. O presidente do Supremo Tribunal de Justiça ordenou a destruição das escutas telefónicas que sustentavam as suspeitas."

Depois de lida esta notícia em http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1421023, fico com a sensação de que, pelo meio daquelas duas figuras da Justiça, haverá alguém que as hipnotize. Sem grandes buscas para saber quem será, encontrei um "cartaz" em http://wehavekaosinthegarden.wordpress.com/ e vejam quem é o "mágico" !

Um pouco mais adiante, ouvindo um ancião (cujo rosto me faz lembrar aquelas figuras do séc. XIX dos romances de Júlio Verne) falar em espionagem, ei-lo na dita.

E mais não digo, porque só não percebe quem não quer.



sexta-feira, 13 de novembro de 2009

"INDA O TRONCO ESTÁ POR VIR" - (Bandarra)

Segundo as notícias, as coisas avolumam-se para o lado daquele que alguns portugueses teimam em manter como primeiro-ministro. O homem parece mentir, tal como o Pinóquio, mas o nariz não lhe cresce em comprimento; antes se abatata, como um furúnculo, parecendo um ariete quando se enfurece e invectiva os adversários (principalmente a comunicação social).
Enquanto isso, assistimos aos silêncios de Geppetto perante os fumos de tráfico de influências, conversas duvidosas com amigos igualmente assim, ajudas a Manueis Finos com problemas financeiros, outras tantas a Quins Oliveiras que dominam muito papel impresso em prol da causa, Ongoing's (oinc! oinc!) dos Vasconcelos ( um outro, foi defenestrado na História, como sabeis), Freeport's que o paciente inglês da congregação já arquivou, para dar o exemplo, e o que mais virá por aí abaixo..
Pelo meio, o passar do testemunho esfarrapado entre PGR e STJ.
O povo, esse, que se deixa enganar (porque quer) descansa e segue o rifão: o que havemos de fazer? Descansar e tornar a beber. Ora, recorrendo a um outro aforismo sertanejo, atrevo-me a sugerir - isto só com pau, corda e chinguiço.
Pinóquio e Geppetto, se bem que feitos de carne e pau, parecem entender-se e ambos, com "cara de pau" recolhem a língua na boca e deixam que o tempo e o futebol façam esquecer estas escutas e mais escutas, espionagem e mais vilanagem.
Favores e mais favores, ninguém já duvida que os vai havendo. E lá vai outro rifão: eu venho do "dá cá, toma" e vou para o "toma, dá cá"; nunva vi "dá cá" sem "toma", nem "toma lá" sem "dá cá".
Quo usque tandem abutere, Socratilina, patientia nostra?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

"HAVERÁ AÇOITE E CASTIGO"- (Bandarra)

Daqui a duas dezenas de anos, mais ou menos, dois senhores encontram-se para recordarem episódios passados, principalmente um incidente que ocorreu quando um era o chefe do (des)Governo deste País e o outro um alto quadro da Banca (e que Banca!).
Ouçamos o que dirão.
- Olha Armando, lembras-te daquelas chamadas que me fazias a perguntar como estava o tempo?
- Se me lembro, Zé, se me lembro!
- E a chatice que elas me causaram, não fossem os meus amigos da Justiça!
- Chiça!
- Afinal, para além do tempo, só contámos anedotas de alentejanos e uma daquela velhinha da oposição. Lembras-te?
- Lembro, Zé. Falámos muito do tempo... e da ferrugem.
- Da ferrugem, Armando?! Qual ferrugem?
- Da que corrói o ferro, pá. A ferrugem é como o tempo e este é como a Justiça - dá tempo ao tempo.
- Ah!
- E falámos daquele meu carro velho que eu tinha quando fomos sócios dos combustíveis...
- A sucata, sim. Aquilo era uma sucata.
- Ora, aí está: vê lá se te lembras? Alguém estava do outro lado a ouvir e, mal se falou em sucata, tau! Até parece que os ouvi gritar, lá das catacumbas da secreta: apanhámo-los!
- Apanharam-te, queres tu dizer.
- Não, não apanharam, Zé, que a Justiça corre muito devagar. Julgo que o julgamento está marcado para daqui a seis meses.
- Ora bolas, Armando, logo quando eu estou em campanha eleitoral para renovar o mandato...
- A partir daí, telefone e telemóvel, internet e o diabo a quatro, nada de nada.
- Apenas estas conversas solitárias onde ninguém nos ouve.
- A propósito, aquilo que ali está não é um gato?
- É. Vamos atrás dele, pois acho que esteve à escuta e a gravar...
- Embora!

Deixemos estes dois anciãos na perseguição do bichano e continuemos a estrofe do Bandarra que serviu de título:
"Um dos três que vão arreio
Demonstra ser grão perigo;
Haverá açoite e castigo
Para gente que não nomeio."