sábado, 22 de abril de 2017

A VOLTA AO MUNDO (E À MINHA CABEÇA) EM 80 DIAS


Já aqui falei neste trabalho/lazer e volto a falar dele porque me têm chegado provas de incentivo para o continuar.
Para ser sincero - como costumo - é daqueles trabalhos inconcluídos que ficaria a aguardar um hipotético desejo de o concluir, a exemplo do que já aconteceu com outros. Não sei...
A Banda Desenhada, no meu entender, possui uma engrenagem equivalente à das antigas noras de tirar água. Para quê dar à manivela e à roda do poço, quando a água salta das torneiras a um simples toque? E, pior ainda, quando já há por aí tanta água engarrafada, engarrafonada, obliterada e não sei mais quantas terminologias idênticas?
Se acabar este trabalho, sei que terei de puxar pela bolsa sem ver retorno da espórtula; isto quer dizer que, para apenas vender meia dúzia de livros, além de me deixar indisposto, acabará por desmotivar outros empreendimentos editoriais. Para os oferecer a todos, ainda não acertei nos cinco números e nas duas estrelas para encher o cofre. Pensar em arranjar editor está fora de questão, porque não estou disposto a "pedinchar", tanto mais que, o meu feitio independente e pouco dado a negativas, deu em acabar com esse peditório. Para complicar ainda mais, tenho outros trabalhos editoriais a sair periodicamente e, até me enfastiar, penso prosseguir com os mesmos. Para finalizar o rol das justificações, pesa a proliferação desta obra editada em Banda Desenhada, quase toda ela com qualidade superior e mais oleada para chegar ao público leitor.
Logo, mal apanhe uma aberta e a vontade desperta, sou capaz de ir para a hipótese das ofertas, com uma tiragem equivalente à de uma sala de aulas.
Mas não foi por isto que volto ao assunto.
Este trabalho foi feito para me divertir e para experimentar a cor do "photoshop". Tinha a intenção de fazer tudo em 80 dias, na justificação da viagem de Mr. Fogg, sem planificação, sem cuidar de enquadramentos e sem me preocupar com o desenho e os seus pormenores. Arranjei um caderno escolar, desses de capa preta da "firmo", uma esferográfica azul (daí ter feito o scan a preto para reproduzir a imagem em cima) e retoquei com tinta a arte final. Desenhei para mim, pelo que sou autor e leitor de uma obra solitária, manca, instável e possivelmente sob condenação eterna do seu ilustre autor do texto, que muito admiro.


sexta-feira, 21 de abril de 2017

ENCICLOPÉDIA ALEGRE DE BRUXAS E SUPERSTIÇÕES - Letras Q-R

Q
QUEBRANTO. Na farsa Quem tem farelos?, de mestre Gil Vicente, a determinado passo encontra-se a excomunhão: “Má cainça que te coma/ mau quebranto te quebrante”.
Este anátema possui característica inversa à das feromonas – nem sequer faz despertar o apetite sexual. O “quebrantado” ficará, pois, num estado de letargia, abúlico, febril e definhado.
O quebranto age como um vírus, talvez com o poder de “o pai de todos os vírus”, só lhe faltando um nome em latim e referência em simpósio farmacológico para se tornar mais respeitável entre os seus pares. De qualquer forma, sempre é mais fácil de pronunciar que enterobius vermiculares, uns vermes no vulgo alcunhados de lombrigas.

R
REUNIÕES. Segundo consta, podem realizar-se em qualquer lado, mesmo em salas multifuncionais com ar condicionado, projectores de tela, tradução simultânea e acesso à internet. O mais provável é que se dispensem esses requisitos e ocorram numa laje granítica, previamente limpa de detritos de rebanho, junto a uma encruzilhada de caminhos onde não haja sinalização de trânsito.
Já o calendário pia mais fino e é imutável nos dias de presença, sem hipótese para ausências justificadas, às terças e sextas feiras. Tratam-se assuntos que são postos dentro e fora da ordem do dia, lançando os seus discursos de elevado teor conceptual, permitindo-se considerandos, requerimentos e propostas, desde que contenham matéria conclusiva sobre a arte de embruxar toda a coisa.
Não levem a mal, mas como ainda não assisti a nenhuma, não asseguro se tudo isso se passa como em outras assembleias desassombradas. Também não me consta que se lavrem actas, relatórios ou meras resenhas sobre os assuntos agendados.
Ah! Não sei se as votações são por maioria simples ou por unanimidade, de braço no ar ou língua de fora; e sei também que as únicas geringonças permitidas são as vassouras de transporte.
Como é da praxe, reunião antes, estômago depois. É neste particular e em outros fora deste âmbito: quando se trata de seminários e outros arraiais congéneres, umas roucas e outras afónicas, as bruxas empanturram-se de comidas pouco recomendáveis e indigestas, com alto teor calórico. Mas é uma opção que as livra da conta exagerada e das gorjetas nos restaurantes.

S
SÁBADO. Dia das reuniões – o “sabat” – em que reúnem as bruxas com o bode dos “cornos grandes”, que desempenha funções equivalentes às de presidente do conselho de administração, e que preside à cerimónia numa encruzilhada de caminhos e em redor de um espinheiro. Esmeram-se na forma indecorosa como se vestem para a ocasião, narram façanhas, fumam charutos Montecristo (furtados na secretária de algum ministro ou de um banqueiro), falam das vítimas passadas e futuras e apresentam ao amo as neófitas de quem serão madrinhas.
As noviças, que possuem perfis no Linkedin, iniciam-se por renegar a religião e a existência de Deus, enquanto as madrinhas são recompensadas com moedas de ouro e prata, que terão de ser gastas no prazo de 24 horas, numa casa de bingo ou num supermercado, sob pena de desaparecerem em fumo.
Goethe e Victor Hugo tentaram-se pela descrição sabática nas suas obras e o pintor Jeronimus Bosch, em “As Tentações de Santo Antão”, colocou na tela um casal de bruxos que vai até ao “sabat” montado num peixe, o que constitui substituição do uso da tradicional vassoura.
SANCHO PANÇA. É o martirizado e incompreendido companheiro de D. Quixote, autor da máxima que outros parafraseiam - não creio em bruxarias, mas que as há, há.
Farto de ver coisas estapafúrdias, das quais e não menos significativa era um amo desaparafusado do juízo, o gordo e desajeitado escudeiro só lhe faltava acreditar em bruxas. Aliás o Sancho Pança era um pobre diabo que tinha um fôlego épico para aturar tanto disparate junto. Mas tantas e tais as mirabolantes contradanças e alucinações em que o seu amo se meteu, que o coitado passou a crer na existência daquilo que não cria, mas que nós cremos que ele cria.
SAPATOS. Agora habituei-me aos pés e aos sapatos sem atacadores, como ténis e mocassins, os que apertam com velcro e sandálias. Sapatos com atacadores, só para cerimónias e calça vincada. Por essa razão não me preocupo com a superstição que diz ser aziago calçar um dos pares com um atacador castanho e o outro com atacador preto, pois o castanho simboliza a terra da sepultura e o preto a escuridão da morte.
Na passagem de um ano para o outro, há quem se dê ao cuidado de colocar uma nota (no caso, o euro, no mínimo uma nota de cinco) dentro de um dos sapatos (de preferência, o direito), porque atrai mais dinheiro, uma vez que se acredita que a energia e a abundância entram pelos pés.
A propósito, também traz bom augúrio saltar com o pé direito, sem se incomodar muito com os euros aí escondidos, porque mais pisados do que estão pela Europa fora, é impossível. Acautele-se com o cheiro dos pés, principalmente se pretende posteriormente trocar a nota.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

CONTOS DE AMOR E DRAMA - NOVOS VOLUMES


Depois da publicação dos 2 primeiros volumes, cada um com 206 páginas, tenho prontos para a gráfica os 3º e 4º volumes com 206 páginas.
A capa do 4º volume, para alertar os que menos atentos poderão estar aos meus post's, possui o desenho que eu inseri na contra capa do meu mais recente romance policial. A razão é simples: neste quarto volume está o conto que deu origem ao romance, com a mesma passagem que a capa ilustra.
Deste quarto volume reproduzo o prefácio.

PREFÁCIO

 Este é o quarto volume da série de contos que eu fui publicando ao longo do tempo, em revistas e em jornais, com alguns inéditos e outros retirados a obras que não cheguei a dar ao prelo.
Neste livro consta um conto de género policial – muitos preferem dizer policiário – que é um dos inéditos inicialmente proposto para um romance e que transformei num conto, que tem por título “Um Caso de Adultério”, amputando e corrigindo grande parte da ação.
O Conto “A Bandoleira” é baseado numa figura real, recolhida na imprensa da época e que eu decidi trazer aqui embrulhada em ficção.
A maioria dos contos continua a provir desse manancial que produzi durante mais de um decénio, a pretexto de novelas românticas, para uma revista feminina com certa regularidade, de tal forma que foram publicados 138 contos ou histórias de amor, em outros tantos números daquela revista, então uma das de maior tiragem no País, com uns invulgares 400.000 exemplares de tiragem, em média, por semana. Acontece que, a este volume, resolvi trazer o primeiro com que encetei essa colaboração, em dezembro de 1990 e a que dei o título de “Aconteceu no Egito”.
“A Bruxa” faz parte de um original inacabado, que pretendi dedicar a uma figura lendária: o João Tição da Fonseca, guerreiro português do séc. XII, enquanto “O Crime de Ana das Dores” foi um capítulo que resolvi expurgar ao meu livro publicado com o título “O Padre Costa de Trancoso”, que vai na 5ª edição.
Hão de reparar que há oito contos que têm como protagonista um narrador na primeira pessoa. Isso não quer significar que seja eu, autor, a narrar factos da minha vida ou que tivessem acontecido comigo, nem que esse “eu” respeite a uma única personagem que se repete nessas oito narrativas. No entanto, dizer que eu, o autor, não se identifica com aquele ou aqueloutro personagem, é extirpar de mim aquilo que eu sou, quer na ousadia, nas circunstâncias e na liberdade que eu fruo no dia a dia como cidadão e como pessoa.
Já escrevi romances, ensaios, monografias, estudos históricos e regionalistas, mas nenhum me deu e dá tanta amplitude criativa como este género de literatura que agora vos apresento. Trago para o palco da obra muitas dezenas de personagens que se ficam pelo compartimento do título onde gravitam, mas dou-lhes a liberdade de questionarem o autor: ou porque as destrato; ou porque evidencio os seus defeitos; ainda porque as faço sofrer (o que também me dói); finalmente porque coloco um fim inesperado, imprevisto e, quiçá ainda, em contrassenso. Há ainda a considerar que, no conjunto dos volumes publicados e a publicar, percorro todos os continentes da Terra, incluindo os oceanos, com povos e costumes, sítios e gastronomia de cada uma das regiões, o que me levou a uma constante busca em revistas especializadas para colher dados que, de outro modo não teria, uma vez que, ao contrário das minhas personagens, nunca lá pus os pés.
Apesar de num ou noutro caso ter como “chave” ou “semente” da ação algumas situações reais e figuras que as desempenharam, tive o cuidado de alterar o que me deu na real gana modificar, de sorte que em nenhum deles pode existir cotejo com eventuais situações ou pessoas reais.
Repito ainda o que disse nos anteriores três prefácios. Para esta recolha, optei eu próprio por ilustrar todos os contos, desenhando os pórticos um por um com base no escrito e na ação. O mesmo fiz com a capa, naturalmente ilustrada com a imagem de pórtico de um dos trabalhos, escolhida e colorida aleatoriamente.
                                                                                                                                         Santos Costa

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O MAGRIÇO EM A4 - 1º VOLUME


Pois é. Tanto andei, tanto andei, que acabei por publicar As Aventuras do Magriço em A4. Os exemplares chegam amanhã, vindos da gráfica, e respeitam ao primeiro de quatro volumes já concluídos. A saga, no entanto, correrá por mais volumes, logo que vá registando consoante a disposição e o engenho.



As capas - que já estão feitas para os ditos quatro volumes - vão ser de cores diferentes quanto ao fundo e às imagens.
Em cima, uma das poucas páginas com uma só vinheta; a seguir, a capa e a contracapa; em baixo, uma página deste volume.
A impressão foi feita sobre papel de 120 gramas, o que torna o álbum mais consistente.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

ENCICLOPÉDIA ALEGRE DE BRUXAS E SUPERSTIÇÕES - letras O e P

O
OBJECTOS. Aconselham a que nenhum objecto partido deve ser mantido em casa, na passagem de ano; eu diria mais, tudo o que tresande a partidos. Se tiver por lá uma geringonça, rua com ela!
Deve deitar fora todas as más recordações impressas, como as fotografias dos ditadores e quejandos – possivelmente trará bom augúrio para si e para o País.
Tendo em conta esta tradição, já esteve mais longe a ideia dos municípios aumentarem a taxa sobre a gestão de resíduos sólidos urbanos, bem como a taxa de protecção civil, a da conservação dos esgotos e uma outra, a criar, sobre mobiliário do ano velho fora de casa.
ORAÇÕES. De barato seguem algumas orações indispensáveis ao espantar das abominações.
Uma delas, dita ao deitar, faz com que as bruxas não se metam com o dorminhoco, o mesmo que é dizer, numa linguagem mais pueril, que se intrometam entre quem dorme e o João Pestana. E reza assim: “Oca, marnoca,/ três vezes oca;/ pé no pé, freio na boca;/ trista com trista,/três vezes trista,/ S. Pedro e S. Paulo/ e S. João Evangelista/ao redor da minha casa assista”.
Esta outra é digna de memorização: “Eu me apego a S. Silvestre/ e à camisa que ele veste,/ e ao círio pascal,/ e às três missas do Natal,/ para que nem homem nem mulher, me possam fazer mal”.
Para a colecção, mais esta: “S. Pedro, S. Paulo e S. João Evangelista/ em redor da minha casa assista;/ se alguma bruxa, feiticeira ou melgueira comigo quiser entrar,/ conte primeiro as areias do mar”.
Lá vai a última, pois o que já foi dito equivale a uma consulta com preçário muito superior ao valor da sua sobretaxa de IRS. Assim, para fazer fugir uma bruxa que se reconheça, deverá dizer-se: “Tu és ferro,/ eu sou aço,/ tu és o diabo/ e eu te embaço”.
Se julgam que isto é uma falácia, saída do bestunto deste “enciclopedista” desnorteado, experimentem ouvir uma avisada aldeã (das poucas que resistem), no exorcismo de berço de uma criança que abra a boca num bocejo: “Anjo bento, o Espírito Santo te entre pela boquinha adentro”.
Mais tarde, a mesma criança, agora já homem no Parlamento, poderá ouvir da mesma aldeã: “(marm)anjo de S. Bento, um moscardo te entre pela bocarra adentro!”.

P
PENEIRAS. São crivos para peneirar farinha ou qualquer outra substância a refinar, mas também servem como passagem de testemunho no âmbito deste enlevo do oculto.
Eu explico: quando alguém, tido com poderes de bruxaria, estiver para morrer, só finará quando lhe entregarem uma peneira; a pessoa que faz a entrega ficará com os poderes de bruxaria transmitidos pela moribunda. Esta passagem é conhecida como entrega dos “novelos do mal”       .
A principal questão – e eu coloco-a antes que me façam essa pergunta – é saber se, à falta da passagem de testemunho, a bruxa não se arrisca a ter uma vida perpétua. Digo isto porque vai ficando escasso o fabrico de peneiras. No entanto, se lerem o parágrafo seguinte (que o legislador introduziu para prevenir estas casualidades), ficarão com a resposta.
Parágrafo único – à falta de peneira, o contacto simultâneo de ambas as mãos supre a ausência do adereço.
PORTAS. Entradas pouco utilizadas pelas bruxas – e pelo Pai Natal, acrescente-se também – uma vez que preferem a forma bizarra da entrada pelos telhados e pelos buracos das fechaduras.
Suponho que também entrem pelas chamadas “portas do cavalo”, umas entradas que geralmente têm um letreiro a avisar que é para uso exclusivo do pessoal ao serviço, mas por onde entram os amigos sem senha de atendimento.
Quem não tem certezas, bem fará em ganhá-las. As bruxas entram por todo o lado, com portas ou sem elas. Com a mesma facilidade, com ou sem portas, também entram na política. Cruzes, credo!

segunda-feira, 3 de abril de 2017

A LUZ AO FUNDO DO TÚNEL


Esta caricatura foi "pescada" nos meus arquivos. Foi publicada, em seu tempo, no semanário "O Diabo" e foi propositadamente feita aquando da polémica com o túnel do Marquês, cujas obras estavam a ser embargadas. Falar do túnel do marquês, sem o marquês!...
Desenhei quase tudo o que era político nesse tempo. Fazia os desenhos da parte da tarde dos domingos e enviava-os, a tempo do fecho da edição, às segundas-feiras.

domingo, 2 de abril de 2017

A BD ABRANGENTE


A Banda Desenhada  é abrangente em todos os ramos da cultura e do divertimento, tal como acontece com a literatura e o cinema, uma vez que envolve as características destes dois. Permite recuar no tempo e fardar os intervenientes sem recorrer aos custos de um guarda-roupa; consegue registar a imagem de um "acidente" sem  que seja necessário o recurso a um duplo ou "stunt" (lutas, atropelamentos ou quedas, tudo); regista, como sequência, sem que seja necessário recuar na imagem e fixa-a na retina do observador pelo tempo que este deseja.
O caso das lendas é paradigmático. Como são histórias curtas - e, até por vezes, mirabolantes - a BD pode adaptá-las ao gosto do autor/realizador e passar, através das imagens, a mensagem lúdica contida no texto e oralidade tradicionais.


As duas páginas que aqui coloco respeitam a duas das catorze lendas do concelho de Aguiar da Beira, sendo que ambas foram recolhidas por mim no registo oral, o que quer dizer que se encontravam inéditas, até eu e um outro companheiro - o João Portugal - publicarmos a primeira monografia daquele concelho, seguindo-se uma segunda monografia, deste vez a solo, elaborada e acrescentada por mim cerca de duas décadas depois.


quarta-feira, 29 de março de 2017

OS MELHORES AUDITÓRIOS


Foi hoje. Só este ano já é a terceira acção do género, sendo que uma foi dedicada à Escrita e à História para alunos do 10º Ano e outra (Aguiar da Beira) para alunos do 5º e 6º anos sobre Desenho e Banda Desenhada.
Hoje foi sobre Lendas, tendo como pano de fundo o meu livro "Lendas do Distrito da Guarda". Tudo começou num programa tecido pelo Dr. Rui Santana, director da Biblioteca e Centro Cultural de Trancoso, com o patrocínio da Câmara Municipal de Trancoso, na abertura e decurso da Semana da Leitura/Feira do Livro (no domingo, o  Professor Dr. Frederico Lourenço apresentará os seus dois volumes traduzidos da Bíblia-Novo Testamento, que lhe valeram o Prémio Pessoa 2016), e participação do Sr. Presidente do Município, Amílcar Nunes Salvador, que abriu a sessão.
Os Agrupamentos de Escolas, os professores e os alunos participaram "em cheio". Encheram duas vezes o auditório (uma acção de apresentação da parte da manhã e outra da parte da tarde), com lugares para mais de 100 pessoas.



Falar para um auditório destes, conseguir o seu interesse e a sua participação/colaboração como ouvintes e intervenientes, é um privilégio de que não abdico e que me satisfaz em pleno.
Um aplauso meu, especial, ao Dr. Rui Santana e ao Município de Trancoso, na pessoa do seu Presidente e um agradecimento, também especial, ao Gabinete de Comunicação e Imagem do Município (autoria destas imagens), na pessoa da jornalista de serviço ao evento,  Dra. Inês Amoedo.
Na última das sessões (há duas imagens do auditório sobre cada uma delas), houve uma aluna que pediu um autógrafo. Em folhas de papel branco não só correspondi ao pedido, como desenhei o que a aluna me pediu, seguindo-se uma extensa fila de jovens de ambos os sexos a requererem justamente o mesmo (geralmente fauna vária, desde coelhos a tigres, cavalos, dragões, pandas, gatos, etc.).
Não me cansei. Nunca me canso nestas circunstâncias e com este auditório. Divulgo a escrita, o gosto pela leitura e pela banda desenhada. E sei que, paulatinamente, se consegue passar a mensagem cultural que pretendemos, porque é nesta idade que se formam os grandes públicos.


domingo, 26 de março de 2017

CARICATURA - OS FADISTAS (Caricatura- Il fado de Coimbra)


Porque hoje é domingo, está frio e poucas ideias me passam pela cabeça, dei comigo a pesquisar numa "drive" externa onde guardo alguns dos meus trabalhos já publicados.
Dei com este, publicado na página 3 de "O Diabo" (metade da página), onde dois "estudantes" praticam o fado coimbrão.
No original há uma espécie de balão com a letra de um fado, supostamente criado para a circunstância, que já não vem ao caso - por isso apaguei a legenda.
Trata-se apenas de uma caricatura, das centenas que realizei naquele período, onde não deixei de caricaturar toda a gente, da esquerda à direita, passando pelo centro e pelos extremos; ou seja, corri o campo todo, chutando para todo o lado... menos para a baliza.
Há quanto tempo não exercito uma caricatura!...

Como o meu Amigo Nick Parisi, do blog italiano Nocturnia, faz o favor de me incluir nos "Amici Nocturniani" (ao lado está um link para o Nocturnia, que recomendo) abordei uma das muitas ferramentas de tradução on-line para verter o texto para italiano. É certo que lá irão muitas calinadaes de tradução, porque não tenho, nem de perto nem de longe, as qualidades de tradutor do Nick.---

Depois de ter recebido a correcção do texto do Nick, coloco-a aqui, uma vez que esta é a mais fiel na língua italiana. Fica também demonstrado que as traduções automáticas  na internet não resultam e que não há nada melhor do que um bom tradutor. Daí ter apagado e substituído o "meu" italiano mal traduzido pela do autor do Nocturnia, que agradeço.
Não deixem de visitar o seu blog - http://wwwwelcometonocturnia.blogspot.pt/
Grazie Nick.

"Perché oggi è domenica, fa freddo e poche idee mi passano per la mente, mi sono dato alla ricerca di una "drive" esterna dove conservo alcuni dei miei lavori già pubblicati.
Mi sono imbattuto in questo, pubblicato a pagine 3 di "O Diablo"  (a metà della pagina) nel quale due "studenti" praticano il Fado di Coimbra. 
Nella versione originale c'è una nuvoletta con il testo di un fado, presumibilmente inventato per l'occasione, che adesso non è più attuale - così ho eliminato la didascalia.
E' solo una delle centinaia di caricature che ho eseguito in quel periodo, dove non mi stancavo mai di effettuare caricature di personaggi, che fossero di sinistra o di destra, passando per gli appartenenti al centro o per gli estremisti;  vale a dire che ho attraversato tutto il campo, colpendo tutte le parti....almeno per quanto riguarda la rete di calcio.
Da quanto tempo è che non eseguo più una caricatura!......."

sexta-feira, 24 de março de 2017

ALCUNHAS DE POVOS, TABUS E NOMES DE TERRAS

Numa extensa peça que publiquei na revista dominical Notícias Magazine (Diário de Notícias, Jornal de Notícias e Notícias da Madeira), em 28 de Março de 1999, dedicada a tabus e alcunhas de povos, referi-me à problemática e a uma certa cacofonia de topónimos que se mantêm no País. E desse artigo extraio o pequeno bosquejo que segue.
Imagine-se ter nascido em Porcas (Trancoso), em Parvoíce (Guarda), Poço dos Cães (Ansião), Picha (Pedrógão Grande), Cabrum (Vale de Cambra) ou em Vale de Ladrões (Meda). Embora seja tradição em Barrancos o touro levar a estocada fatal é mais para o norte que surge o topónimo Matança (Fornos de Algodres). Fernão Porco pertence a Oleiros, mas o Casal dos Chouriços é da Figueira da Foz e o Monte dos Toucinhos em Almodôvar. A Vila da Barba adere a Santa Comba Dão, mas é São Pedro do Sul quem tem as Barbas e Avis quem conta com Barba Torta. Se há um lugar chamado Parvoíce, também os há com os topónimos de Juízo (Pinhel) e Memória (Albergaria dos Doze). Arrepiando caminho por estes topónimos nacionais, não se caia na Esparrela (Porto de Mós) em pisar o Rabo do Gato (Vila Real), pois seria um Diacho Velho (Guarda). A Venda do Brasil (Ansião) não corresponde propriamente a um negócio, mas veríamos com bom gosto a sede das companhias de seguros no lugar do Rapa (Celorico da Beira). Quanto a Fiscal (Lousã), ficam-nos os cabelos em pé!
Perante o paradoxo de uma Taberna Seca (Castelo Branco), contas feitas a martelo levam-nos até Torneira (Louriçal), na esperança que desta não saiam Vinagres (Pombal). Para os abstémios, a Ponte do Bebe e Vai-te (Oliveira do Bairro). De preferência o Bom Viver (Guimarães), ao Chiqueiro (Lousã) e ao Hospital (Braga). De Pedrógão Grande, onde consta uma Picha, até Tondela, onde figura o Carvalhal da Mulher, vai a distância do decoro da coisa pública. O topónimo Esfrega (Proença a Nova), como lêem, foi retirado do parágrafo anterior. Cabe ao leitor a serenidade e o livre-arbítrio para juntá-los. O Casal do Grelo (Figueira da Foz), a Comichão (Guarda) e o Coito (Viseu) escusam comentários e zombeteiras comparações, de que nos livra Nossa Senhora dos Homens (Avis).

quinta-feira, 23 de março de 2017

ARRANJOS DIGITAIS

Esta obra começou por ser feita para ser publicada a cores... e não foi. Dada a sua amplitude e o incipiente mercado, levou-me a alterar o padrão e a modificar a sua apresentação, passando da cor ao preto e branco com cinzentos aplicados à trama.
Optei então por publicá-la em formato mais reduzido - A5 - com as "pintinhas" aplicadas como "screenshots" para lhe dar os cinzentos. E saiu assim do prelo.

A tentação do formato e do preto e branco foi mais forte e vá de transformar o trabalho no seu tamanho natural - o A4 - fazendo realçar na prancha, agora sem "pintinhas", a liberdade e a ruptura dos enquadramentos de forma a passar despercebido o limite entre vinhetas.
O que significa isto? Naturalmente, paciência e tempo, um espírito auto-crítico e constante desejo de mudança.
Esta última versão a preto e branco vai ser publicada, em formato de álbum, para amigos e coleccionadores. Ah, sem esquecer que vai ser publicada para mim, pondo assim um ponto final nas alterações a que o meu inconstante gosto apela. Pelo menos, até uma outra alteração...

segunda-feira, 20 de março de 2017

ARTE FINAL E ARRANJOS DIGITAIS



O meu trabalho em BD passa por muitas fases e muitas técnicas, algumas delas saídas do meu bestunto, não necessariamente as mais fáceis e as mais heterodoxas.
É o caso da página que acabei ontem para O Magriço, reproduzida em cima através da tintagem no papel e em baixo no acabamento em computador.
A propósito desta saga, quero dizer que já estou na abordagem do 5º álbum, o que significa que os outros quatro estão concluídos, na ideia de que os darei à estampa, nesta versão, em formato A4.
Este quinto álbum, que se segue ao torneio de Londres, vai encontrar o herói em terras da Flandres, mais propriamente no ducado, onde se encontra, como duquesa, a filha de D. João I de Portugal. Já estaria muito mais adiantado, não fosse esta minha alternância entre a ficção escrita, as publicações históricas e outros trabalhos em desenho, numa inconstância que não me aplaude a fidelidade seja em que género for. É dizer que apenas faço o que me "dá na veneta", o que significa que singro pelos meus impulsos repentinos.

sábado, 18 de março de 2017

APONTAMENTOS CURIOSOS



Em determinadas ocasiões de repouso intelectual e artístico, passo para o meu "notebook" de capa dura "canson", utilizando uma esferográfica de cor preta, os apontamentos e notas curiosas, onde também junto alguns desenhos. É uma válvula de escape que me permite dar vazão a três características que me são peculiares: escrita, desenho e espírito curioso.
Aconselho a todos - a todos mesmo, inclusive aos que não sabem desenhar - a fazerem este exercício, que poderão utilizar posteriormente numa reunião de família e amigos (nem que sejam apenas registos de anedotas), porque é uma forma de criação, se bem que utilizadas fontes que forneçam estes dados, e estas as mais diversas.
Vou dar aqui quatro exemplos retirados deste  meu "book":
Primeiro:
Se multiplicar 111, 111,111 por 111, 111,111, o resultado é igual a 12345678987654321.
Segundo:
Não foi um homem, mas sim uma mulher, quem inventou os limpa pára-brisas. Tratou-se da americana Mary Anderson, em 1903. No entanto, estes limpadores funcionavam manualmente até 1916 (estão a ver a trabalheira sem ninguém no lugar do pendura), ano em que nos Estados Unidos apareceram os limpadores mecânicos.
Terceiro:
A probabilidade de se obter o "jackpot" do euromilhões é astronomicamente baixa: apenas 0,0000009% o que equivale a 1 em 116.531.800, que é o número de combinações possível. Vendo estas coisas de outra maneira: há tantas combinações possíveis que, mesmo que se demorasse 10 segundos a preencher uma chave, demorar-se-ia 37 anos ininterruptos a preencher todas as chaves.
O melhor é confiar na sorte!
Quarto:
Durante uma só estação, uma abelha obreira colhe várias vezes o seu peso em mel. No entanto, como é levíssima (não excede em média as 7 gramas) seriam precisos, deste modo, 140 anos para juntar 1 quilo.

quarta-feira, 15 de março de 2017

CHEGARAM MAIS DOIS LIVROS




Acabadinhos de chegar da gráfica, mais dois títulos, um dos quais anunciados atrás, neste blog, enquanto o outro surge pela sua periodicidade trimestral.
Estou um autêntico editor! Na forja, ainda para este ano, estão mais títulos, de entre os quais dois volumes A4 de banda desenhada.
Irei dando pormenores, consoante a disponibilidade e o interesse em os manifestar.

quinta-feira, 9 de março de 2017

O PRÍNCIPE VALENTE EM TRANCOSO


O Geraldes Lino é, sem dúvida alguma, um dos mais entusiastas e persistentes animadores e divulgadores da Banda Desenhada em Portugal. Incansável, sempre presente em tudo o que transpire BD, não deixa de ousar ir sempre mais longe, em desafios inéditos que congregam autores nas mais
inesperadas realizações editoriais.
É o caso dos enormes (em altura, largura e qualidade) fanzines EFEMÉRIDE, onde tive o privilégio de ser convidado para participar em dois números. Num desses números, o que havia de imaginar o Lino para comemorar condignamente a efeméride da primeira publicação do Príncipe Valente (1937)?
Convidou autores portugueses para elaborarem "pastiches" onde aparecesse essa sempre viva e grandiosa personagem criada por Hal Foster.
Eu aceitei o desafio - até porque recusar um pedido do Lino é um pecado capital - e vá de participar no tema - Príncipe Valente no Século XXI - emparceirando na publicação com mais 21 desenhadores, sendo a capa do talentoso e inesquecível Carlos Alberto.
É claro que eu, colocando o Príncipe Valente em Trancoso, contribuí modestamente para a obra, acompanhado pelos maiores vultos da banda desenhada portuguesa - Pedro Massano; José Garcês; José Ruy; Ricardo Cabrita; Baptista Mendes; Manuela Torres; Augusto Trigo e Irene Trigo; João Amaral; Rui Pimentel; Zé Manel; José Abrantes; Zé Paulo; Carlos Marques; Nazaré Álvares; Pedro Castro; António Salvador; Pedro Nogueira; Álvaro; Renato Abreu; Paulo Monteiro e Susa Monteiro - com paginação e design de Jorge Silva.
É um álbum precioso, que o Lino tratou de editar por ele, com data de 2007.
É uma homenagem ao Geraldes Lino, ao Hal Foster e aos Desenhadores que colaboraram nesta obra, que hoje publico este post.
Acima vão as três tiras da minha autoria, estas com algumas alterações de lettering em relação ao original.
Para além de Val e de Aleta, tratei de compor a imagem do sapateiro com o rosto do Lino e não deixei de colocar o próprio Autor do cavaleiro medieval como vendedor de automóveis! A Banda Desenhada, como sonho de fazer e sonho de ler, permite-nos coisas extraordinárias.

quarta-feira, 8 de março de 2017

ENCICLOPÉDIA ALEGRE 5 (IMPOSTOS)

Com um interregno generoso neste meu item bloguístico, até me esqueci de “postar” entradas sobre o tema. Lembrou-me da “coisa” a propósito dos nomes que a estrangeirada deu à “Geringonça”, que também é um Imposto – e não uma Contribuição – uma vez que governa sem ser directamente votada para ficar em primeiro lugar para governar. Se isto é confuso, eu vos confundo neste poço de perplexidades sem fundo. O caso das traduções do vocábulo Portasiano por essas línguas-de-trapos para além de Vilar Formoso tem dado que falar; pelo menos, foi o que li num semanário abandonado e perdido numa sarjeta (quando o seu lugar seria num ecoponto), na altura em que não tinha trocos nem pachorra para comprar um em primeira mão.
Mas vamos ao vocábulo de hoje.
Durou muitos anos este termo “contribuição”, designadamente nos diplomas fiscais e na própria designação da entidade que superintende – a Direcção Geral das Contribuições e Impostos. Com a queda do que se chamava, muito despropositadamente contribuições, a própria designação da direcção geral deixou de conter esse termo e passou a ser conhecida como Direcção Geral dos Impostos, embora mantivesse a sigla DGCI.
Disse despropositadamente e disse bem, porque a contribuição pressupõe quem contribua com um propósito generoso, direi mesmo voluntário. E não era esse o caso.
Acabou o termo? Nada disso! Então como é que se chama, ou que outro nome tem, a contribuição audiovisual? E o que são as chamadas “contribuições extraordinárias”? Quando até a própria Wikipédia pede “contribuições”!...
Uma coisa é dizer: eu contribuo para a AMI, porque tenho pena dos mais necessitados; outra será dizer: eu contribuo para o IMI, porque tenho pena dos menos carenciados. Para além disso, convenhamos que se o IMI fosse contribuição, seria designado por COMI (Contribuição Municipal de Imóveis) – logo, se o predicado exige sujeito, ou vice-versa, se COMI, comi alguma coisa…
O que contribui chama-se contribuinte, pessoa que o devia fazer graciosamente, segundo a etimologia da palavra. E não o faz. A não ser que seja um filantropo ou altruísta, mesmo assim para outras causas. Há quem ache que o contribuinte é um mecenas ou um trabalhador sem direito a féria. Aquele que foi actor e presidente americano muito antes de Trump, que se chamou Reagan, disse mais ou menos isto: “O contribuinte é o único cidadão que trabalha para o governo sem ter de prestar concurso.”
Também se pode meter neste saco todo aquele “chico” que contribuiu para os dez mil milhões nas “offshores”, na órbita da frase keynesiana de que evitar os impostos é a "única actividade que actualmente contém alguma recompensa".
O livro do ex-presidente da república, que levou o título “As Quintas-Feiras e Outros Dias” bem que podia ter outro título, mais apelativo, capaz de catapultar estas memórias para uma cifra equivalente à publicação das de Obama – 60 milhões (!). Se fosse eu, chamar-lhe-ia “As Quintas-Feiras e Outras Contribuições”. Mas, confesso, eu também não teria pachorra nem capacidade para escrever memórias deste quilate.
Voltemos à família contribuição e imposto, cujo parentesco, no seio das designações fiscais, deve andar à volta de primos. Não havia uma redundância de designações para o mesmo fim? Não entrava tudo no mesmo saco, pela via da mesma caixa? Logo, um estava a mais.
Não estava, disso vos garanto. Os catedráticos aludem a diferentes significados técnicos para a existência dos dois ramos, coisa que eu não contesto.
O próprio termo imposto, se quisermos, já significa contribuir (concordo, por imposição), tanto assim que os serviços fiscais tratam por contribuintes os pagadores de impostos e não por impostores. Nalguns casos, sinceramente, mais impostores que contribuintes.

sábado, 4 de março de 2017

A TORRE DOS CLÉRIGOS E O "HOMEM-MACACO"



Trata-se de uma única vinheta numa prancha de cinco. Faz parte de um álbum de BD que fiz para o Município de Mêda e diz respeito a uma passagem na vida do Homem-Macaco do Aveloso, de seu nome Albano Beirão. É, sobretudo, um registo gráfico de um acontecimento verídico quando o "homem-macaco", durante um dos seus ataques, subiu a pulso a Torre dos Clérigos (Porto) e, para descer (passado o ataque), teve de ser auxiliado pelos bombeiros.
A tragédia aconteceu quando um dos bombeiros salvadores caiu do alto da torre...
Em cima o tratamento de preto e em baixo o de aguarela final, tal como o retirei dos originais em formato A3.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A BOLEIA

Este é um conto retirado do 2º volume dos CONTOS DE AMOR E DRAMA, da minha autoria. É um dos meus preferidos, pelo que o exponho aqui para quem tiver pachorra para o ler na íntegra.
A situação relatada, embora na primeira pessoa, não significa que o personagem fosse eu, mas também não digo que não fosse. Se não aconteceu, podia ter acontecido...

A BOLEIA
Só percebi que a mulher pedia boleia quando já a tinha ultrapassado. De facto, para quem me conhecesse de perto, sabia que num relance eu me apercebia de qualquer presença feminina, mesmo a cento e tal à hora...
Acontecia, naquela ocasião, que eu ia com a minha ideia fisgada quanto à delambida que tinha ficado viúva do meu melhor amigo, descido ingloriamente à terra fria da sepultura uma hora atrás. Não bastava o desgosto de o ter perdido para sempre, ainda tinha a desdita de assistir ao triste figurão que a viúva fez no funeral, a bater-se descaradamente a um marmanjão que parecia quere-la comer com os olhos.
Fiquei bera com aquelas cenas, pronto! O meu defunto amigo merecia uma mulher que o respeitasse na vida e, não digo mais, pelo menos algumas semanas após a morte. Nem uma coisa nem outra. Ela devia estar obrigada à imposição a que estão sujeitas as viúvas de uma tribo da Austrália: não podem falar enquanto não secar uma camada de argila branca aplicada na pele após a morte do marido. E a coisa podia demorar meses.
Estava eu a contar que ultrapassei na brasa a inopinada presença de uma fulana a pedir boleia. Ia triste e pesadão para os lados do humor, mas não me fiz esquisito. Travei a fundo e recuei.
— Para onde é a ida? — perguntei.
Ela deu a volta ao carro pela frente e apareceu do meu lado, metendo o rosto pela janela adentro. Dava para sentir o bafo e o calor que irradiavam aquelas duas protuberâncias mamárias que sobressaíam de encontro à chapa da porta.
Disse com um ar mais natural deste mundo:
— Tu tens tão boa pinta como o carro. Vou para onde tu fores.
Tenho aqui um arranjinho, pensei. E logo num dia em que eu me sentia moralmente nas lonas!
Mas não é que, quando a vi mover as ancas ao dar nova volta ao carro, pela frente, disse para comigo: não é falta de respeito para um amigo defunto arranjar um romancezinho, que as mágoas precisam de um regaço para caírem... desde que não fosse a própria viúva.
A rapariga era daquelas estampas que nos enchem as medidas e ele, lá em algures, podia até chamar-me maricas. Como também não sou um bicho do mato, não me dei por achado.
— Entra e põe o cinto.
Sentou-se tão à-vontade que, mesmo sem fazer esforço estrábico, fiquei a mirar um bom par de pernas, do joelho para cima. Ela sabia as coxas que tinha e os abusados centímetros que deixou ao léu. Tanto sabia que deu em dizer, assim de chofre:
— Olha antes para a estrada e prego a fundo.
Então era isso o que ela queria: emoções fortes. Pois batera na porta certa. Em menos de nada batia os cento e quarenta. Que tal, hem?
— Esta coisa não dá mais ou és tu que não tens unhas para ela?
Toma! Uma boca foleira daquelas merecia resposta adequada. Pisei o acelerador até me doer o tornozelo e encomendei-me ao anjo Custódio. Com uma mulher daquelas a fazer pouco de mim, matutei: dá tudo por tudo, rapaz, e aguenta que é serviço!
À saída da curva, pimba! Avistei num ápice uma mota azul e branca estacionada na berma e o polícia da brigada de trânsito a "morder" o esquema do acelera.
É como digo. Há dias que não devia sair de casa, quero dizer, do quarto, da cama, sei lá, debaixo dos lençóis.
Travei a fundo, fiz uns "esses" pouco ortodoxos e deixei que a frente do lado direito fosse lamber a erva da valeta. Lá consegui parar meia dúzia de metros à frente do sinal de stop que o guarda tinha na mão.
— Você vinha a "abrir" nas horas — iniciou o agente em calão, com aquele sorriso maroto de quem apanha lebre na armadilha. — Faça o favor de mostrar os documentos.
Passei a papelada para a mão dele: livrete, carta, bilhete de identidade, seguro, número de contribuinte e um recibo de uma prestação do carro. Não vi qualquer maquineta de controlo de velocidade e isso deixou-me satisfeito.
— Ó senhor guarda, eu nem vinha com muita velocidade. Quero dizer, não vinha em excesso. Se tanto, devia ir um pouco mais além do que o limite, aí a cem, cento e dez...
Esqueci-me da pendura que levava ao lado. A sua voz inesperada levou-me ao tapete.
— Qual cem, qual quê? — contrariou ela. — Vinhas a uns cento e oitenta, ou mais...
Como se costuma dizer, fiquei sem pinga de sangue!
— Bolas! Esta tipa não regula bem, de certeza! Se eu garanto que não passei dos cem...
— Morde aqui! Alguma vez, a cem, os pneus faziam a chiadeira danada que fizeram?
— Tudo bem, tudo bem — acalmou o guarda, mordendo lábio inferior para suster as gargalhadas. — Ao fim e ao cabo vou fazer de contas que vinha nos cem. Até nem o vou multar por isso, veja lá você!
Começou a rabiscar sofregamente num bloco de multas, com a ponta da língua de fora, tal e qual os putos da primeira classe. Dava-lhe gozo aquela escrita!
Pensei: aquiesceu na questão da velocidade, os documentos estão em ordem, o que é que este me quer?
— Se não é por isso, por que é que está a passar a multa?
Ele deu-me o bloco para assinar sem me dar tempo a ler, cortou o original pelo picotado e tentou esclarecer com outra pergunta.
— Já reparou na sua companheira do lado?
— Acabei de lhe dar boleia.
— Julguei que fosse sua mulher e pensei naquele provérbio que ouvia ao meu pai: antes que cases, vê o que fazes.
— Não estou a perceber, senhor guarda.
— Ó homem — quase gritou ele. — Já viu que ela não leva o cinto de segurança posto? A multa é por causa disso.
Fiquei ali pasmado, feito parvo, enquanto o polícia, cada vez mais sorridente, se acercava da janela do lado dela. Quase enfiou a cabeça por ali dentro e lhe disse ao ouvido, não suficientemente alto mas não deixei de ouvir:
— Aposto que nem foi preciso mostrar a perna para fazer parar este tanso.
Arrumei o papel da multa na carteira e arranquei mais bera do que nunca. Que espécie de maluqueira passou pela cabeça desta fulana?
Eu iria jurar que ela tinha posto o cinto, mal entrou no carro, porque foi a primeira coisa que lhe pedi quando lhe ofereci boleia. Isso queria dizer que fez de propósito para eu pagar a multa. Ou era doida, mas daquelas doidas varridas, ou então não ia com a minha cara e fizera de propósito para me meter naquela alhada.
— Vais chateado, coisinho?
Nem sequer lhe respondi. Fiz bem. Não costumo lançar impropérios e alcunhas a mulher alguma e não queria abrir uma exceção, embora me apetecesse confirmar a regra. Em vez disso, estava mortinho para alijar a carga o mais rapidamente possível. Mal entrei na cidade, encostei.
— Ficamos por aqui. Faz o favor de descer.
— Logo aqui, coisinho, longe da paragem do autocarro?
— Longe da paragem ou perto do inferno, tanto me faz.
— Isso é que não se faz…
— Pira-te e fecha a porta, que para chatice já me chega a que arranjaste.
Ela fez beicinho. Então apercebi-me que era encantadora, mesmo bonita. Mas eu estava pior que uma barata.
— Pronto! Já vi que sou indesejável. Para te compensar, toma lá um bilhete para o meu espetáculo.
Ia dizer para meter o bilhete num sítio que eu sei e ela também sabia, mas contive-me. Não esperou resposta, abandonando o bilhete no assento e saindo porta-fora com um intrigante: vemo-nos em breve.
Em breve?! Nem que ela fosse a única numa ilha deserta e eu estivesse com um ataque agudo de cio!
Meia hora depois puxei pela carteira para comprar um maço de tabaco e... tinha sumido. Revistei o carro de ponta a ponta. Nada. Foi a tipa!
— E agora, onde é que te vou apanhar?
Lembrei-me do bilhete do espetáculo. Estava caído no tapete. Em vez de ter algo a ver com strip-tease, como imaginava, remetia para um show de ilusionismo num bar da cidade. Resolvi comparecer. Ela havia de apresentar-me a carteira com todos os documentos — e a multa, chiça, e a multa! — ainda que lhe tivesse de apertar o gasganete.
Cheguei atrasado mas ainda deu para ver que ela não tinha mentido. Apresentava sozinha um espetáculo de ilusionismo, com aquela coisa das argolas que encaixam e desencaixam, cordas que se cortam e se voltam a unir, pombas que se transformam em papelinhos e guarda-chuvas que se convertem em gravatas.
Mal me viu, sorriu com um ar de triunfo, vá lá saber-se porquê.
— Por fim, a terminar — disse para o público —, graças a um golpe de mágica, vou fazer aparecer, no lugar deste coelhinho branco, a carteira do senhor que acaba de entrar.
Toda aquela gentinha pôs os olhos em mim. Nem sei como mantive a serenidade suficiente para não desatar ali aos berros.
— Um... dois e... — destapou a pequena gaiola onde tinha colocado o coelho e fez aparecer no seu lugar a minha muito desejada carteira.
— Três!
Fiquei como uma estátua. Pela minha cara, os presentes que olharam na minha direção viram que eu fiquei naturalmente perplexo e que aquilo não tinha sido combinado.
— Esta é a carteira daquele senhor. Faça o favor de subir ao palco e de conferir se é sua e se está tudo em ordem, cavalheiro.
Então não merecia uma resposta? Fiquei tão apalermado com o desplante que, na ânsia de agarrar a carteira, tropecei num degrau do palco e estatelei-me ao comprido.
Quando ouvi as gargalhadas da assistência, jurei: nunca mais dou boleia a ninguém. Nunca mais!
Eu só pretendia reaver a carteira, mas ela arrastou-me para o camarim.
— Desculpa lá esta, mas não fiz por mal. Pensei que este truque de te "bifar" a carteira dava um excelente número e não me enganei.
Fui tão direto como a seta de Robin Wood, melhor, a de Guilherme Tell.
— Quero acabar de vez com esta palhaçada. Para já, não te quero ver mais à minha frente, nem pintada!
— Calminha, coisinho. Vês isto aqui?
Mostrou-me o bloco das multas que eu vira nas mãos do polícia e continuou:
— É a colheita de um dia de trabalho na estrada. Tirei-lha com muita pinta, tens de reconhecer. Sabes para onde vai tudo isto, incluindo a tua multa, não sabes? Olha...
Sem mais aquelas deitou o bloco no cesto do lixo. O original que eu tinha guardado na carteira seguiu o mesmo destino.
— Estamos quites, menino. Depois disto, vai à tua vida, que nunca mais te vou chatear.
Nem lhe agradeci aquela coisa da multa. Vendo bem as coisas, tinha de agradecer? Estava disposto a não vê-la nunca mais...
Puro engano! Quando, em casa, ia a puxar do isqueiro de prata para acender o cigarro, encontrei no bolso do casaco um bilhetinho assinado:
"Espero-te para jantar no restaurante da marina, o “Lagostim Azul”, às vinte horas em ponto. Se faltares, o teu isqueiro vai tomar banho. Será que ele sabe nadar?"

domingo, 26 de fevereiro de 2017

AS BODAS DE D. DINIS


As Bodas de D. Dinis e de Isabel de Aragão foram tratadas por mim em banda desenhada. Até aqui não havia novidade nenhuma, uma vez que já fiz outros álbuns de BD; porém, este teve três edições em simultâneo - uma em português, outra em castelhano e uma outra em inglês - cada uma delas com a tiragem de 3.000 exemplares.
A edição é de 2005 e as versões em castelhano e inglês tiveram tradutores próprios. Em cima, as três versões, em cada uma das línguas, da página 5.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O REGICÍDIO - ADAPTAÇÃO DAS VINHETAS


O que para muitos é uma chatice, caso tenham de adaptar as vinhetas de um trabalho já publicado a novo formato, para mim é uma desafio; logo, é com gosto que me meto ao trabalho e transformo aquilo que fiz sem alterar muita coisa.
É o caso de  "O Regicídio" (a morte do Rei D. Carlos I num atentado), que publiquei em páginas de um jornal, em formato ligeiramente superior a A3, com quatro tiras por página, para adaptar esse mesma obra a um formato mais pequeno, ou seja um A5 com apenas duas tiras, ficando cada uma das vinhetas em maior tamanho.
É necessário cortar de modo a caber no novo enquadramento, aparando ligeiramente o desenho original ou preenchendo os espaços vazios, tarefa que executo directamente no computador, desenhando com... o rato!


Trago dois exemplos inacabados dessa transformação. Em cima, o Campo Pequeno e uma visão da praça, o touro e o toureiro, enquanto na "aficción" têm diálogo dois conspiradores. Note-se a limpeza dos balões rectangulares originais, que agora e desta feita serão arredondados e ovalados. Na segunda vinheta, uma perspectiva das Cortes (Assembleia da República), onde se notam os espaços em branco que precisam ser preenchidos (com desenho e com texto).

O terceiro exemplo é um conjunto de três vinhetas acabadas.
Perguntarão: isso dá muito trabalho, onde está a paciência?
Respondo: no prazer em trabalhar, principalmente naquilo que gosto de fazer.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

sábado, 18 de fevereiro de 2017

ANIVERSÁRIOS-EFEMÉRIDES

 1745 Nascimento de Alessandro Volta (Alessandro Giuseppe Antonio Anastasio Volta), físico italiano, natural de Como, conhecido pela invenção da pilha eléctrica, a primeira fonte de corrente contínua de que a Ciência dispôs, pela invenção do electróforo (1775), uma máquina que produz electricidade estática, e pela descoberta do gás metano (1178), conseguindo-o isolar. Apesar de só começar a falar aos 4 anos de idade, aos 14 decidiu estudar física, renegando a carreira eclesiástica com que a família sonhava para ele. Em 1779, tornou-se professor de física na Universidade de Pavia, posição que ocupou durante 25 anos. Casou-se com Teresa Peregrini e teve três filhos. Faleceu a 5 de março de 1827.
 1898 Nascimento de Enzo Ferrari (Enzo Anselmo Ferrari), piloto de automóveis, industrial e fundador da Scuderia Ferrari e da fábrica de automóveis Ferrari, natural de Módena-Itália. Inicialmente trabalhou como mecânico até ao início da Primeira Guerra Mundial, altura em que entrou na Contruzioni Mecaniche National, como piloto de testes. Ao ser recusado pela Fiat, ingressou na Alfa Romeo como piloto. Criou a Scuderia Ferrari no ano de 1925, em Módena, transferindo-a depois para para Maranello. Obteve 19 vitórias em Le Mans e nove títulos na Fórmula 1. Recebeu do governo italiano o título de Comendador. Faleceu aos 90 anos, em Maranello, a 14 de agosto de 1988.
 1906 Nascimento de Hans Asperger, psiquiatra e pesquisador austríaco, natural de Viena, a quem se deve a descoberta e a classificação da Síndrome de Asperger. Licenciado em Medicina em 1931 trabalhou na clínica infantil da universidade em Viena e na clínica psiquiátrica, em Leipzig, demonstrando interesse em crianças "fisicamente anormais” e realizou estudos com mais de 400 crianças, sendo ele um dos pioneiros no estudo do autismo. Incansável, publicou 359 trabalhos científicos, na sua maioria sobre psicopatia autista e morte. Trabalhou até ao fim, dando aulas e prosseguindo as suas investigações até seis dias antes de morrer, na sua cidade natal, a 21 de Outubro de 1980.
1947 Nascimento de Carlos Lopes (Alberto de Sousa Lopes) atleta e campeão olímpico português, natural de Vildemoinhos-Viseu,  um dos melhores da sua geração, sagrou-se campeão olímpico da maratona nos Jogos Olímpicos de Los Angeles (1984). Nos 5000 metros bateu por 9 vezes o recorde nacional e nos 10000 tornou-se recordista nacional por 8 vezes. Conquistou uma medalha olímpica de prata em 1976 e, em 1984, alcançou o 2º tempo mundial de sempre. Em corta-mato foi campeão nacional por 10 vezes, vice-campeão mundial em 1977 e em 1983, e campeão mundial em 1976, 1984 e 1985. Campeão mundial dos 3000 metros obstáculos e em 1985 tornou-se o recordista mundial da maratona.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

D. AFONSO HENRIQUES E D. EGAS MONIZ


O Luiz Beira telefonou-me hoje para me falar de D. Afonso Henriques. Curiosamente, ontem tinha recebido um convite para participar, com um trabalho, numa exposição sobre este nosso primeiro rei.
Ora, o Luiz Beira, que recentemente fez uma doação à Biblioteca Municipal de Viseu de mais de 10.000 obras de banda desenhada (de entre as quais, cerca de 6.000 álbuns - ver notícia em http://bloguedebd.blogspot.pt/2017/02/foi-bonita-festa-pa.html), ao saber que eu tinha feito um trabalho sobre a figura da do rei, ficou interessado neste álbum, o qual certamente não fará parte - pelos vistos - da colecção doada.
É um álbum que realizei - vai para 15 anos - para uma editora, a qual entregou a obra à Câmara Municipal de Lamego, entidade que a encomendou. Sei que a tiragem foi generosa e não sei se há exemplares disponíveis. Eu não tenho!
O título é "D. Egas Moniz, o Aio", e retrata a infância de D. Afonso na companhia do seu aio D. Egas Moniz em Britiande (Lamego). Percorre parte da infância do que viria a ser rei, designadamente aquele episódio que é muito conhecido como o "milagre de Cárquere", que curou o rei de um aleijão de nascença e que o impedia de andar.
Como tenho o meu exemplar, quase dei cabo dele para tentar passar algumas pranchas ao "scanner", com a dificuldade acrescida de o álbum ser ligeiramente superior a A4.
De qualquer forma, segue uma vinheta (acima) e três pranchas do episódio com o javali, bem como uma outra com o rei já adulto em combate contra os Trava e a mãe.