quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O ESQUIÇO, A TRAMA E A COR



Normalmente é hábito dos autores de BD guardarem ou destruírem os esquiços da sua arte. Não acontece comigo, porque guardo tudo, principalmente em formato digital.
Acontece, como é disso exemplo as três versões acima, que eu para além de guardar, transformo e altero conforme a veneta do momento e a opção que pretendo para o trabalho final. O que aprecio hoje, amanhã posso não gostar ou até detestar, sem que isso envolva a destruição do material, uma vez que este estado de ânimo pode alterar a todo o momento.
Submeti o mesmo trabalho à apreciação de familiares e amigos e obtive uma resposta inesperada: preferiam o esquiço. E não é que me convenceram? A tal ponto fiquei que, nos casos em que o esboço ou debuxo ficou sem ponta por onde pegasse, os refiz e estou para recuperar os restantes, dando-lhe novos balões, os quais encostam às linhas do enquadramento, para "arejarem" o desenho.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

LENDA DE BANDARRA


Para o Dia da Criança e da Juventude, a Câmara Municipal de Trancoso teve a louvável iniciativa de oferecer, a cada um dos alunos do concelho, um exemplar das Lendas de Trancoso, brochura de formato A4 que contém, nas suas 32 páginas, exactamente 30 lendas do concelho. O trabalho foi feito por mim, a título gracioso (como se diz, "pro bono"), ilustrado de forma a poder ser colorido pelos mais jovens. A cada lenda uma página e uma gravura alusiva.
De entre as lendas, uma delas encontrei-a numa obra desse admirável Homem que foi o Padre António Vieira, para quem Bandarra era uma figura notável.
E é essa lenda que reproduzo a seguir.


QUE SE COMPRE BAETA
Passeando dois escudeiros, encontraram o Bandarra. Quiseram então saber o que ia acontecer nos tempos mais próximos.
“Temos alguma coisa de novo, Gonçalo Anes?”
O Bandarra encarou-os e respondeu: “Sim, temos.”
“E quê?” Tornaram os escudeiros, agora expectantes.
“Que se compre baeta”.
Os escudeiros entenderam que na casa de algum deles ia acontecer alguma morte. Comprava-se baeta para se vestir quando houvesse luto na casa.
“E qual de nós é que há de comprar baeta?”
O Bandarra respondeu:
“Todos”.
Acaso viria alguma peste que levasse toda a gente da vila? Não inquiriram mais, pois o vate continuou o seu caminho com ares de quem não queria responder a mais perguntas.
Daí a poucos dias adoeceu gravemente o infante D. Luís, filho de el-rei D. Manuel e, por sua morte, foi decretado luto geral em todo o reino.
Então os dois escudeiros entenderam o vaticínio do Bandarra. Todos os portugueses teriam de comprar baeta para vestirem pela morte do príncipe.

domingo, 30 de setembro de 2018

CRIMES NÃO RESOLVIDOS

Acontece encontrar nas minhas buscas pelo arquivo de papel desenhado, algumas pranchas que já julgava perdidas (o que é raro, porque não deito fora o que me deu tanto trabalho), e outras de que já nem sequer me lembrava. É o caso desta adaptação incompleta dos desenhos que publiquei sobre o caso nunca resolvido do "estripador". É assunto que arrumei de vez, até porque foi uma das BD's que me custou a fazer, por ter de desenhar cenas terríveis.
O desenhador de BD , ao contrário do fotógrafo, esteve lá sem lá estar.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

DESENHOS DE ARQUIVO


Quando preciso alguns desenhos ou modelos, faço-os e coloco-os em folhas, que depois arquivo. Tenho "montes" destas coisas, como se fossem mini-enciclopédias em folhas de arquivo, talvez até para não servirem para coisa alguma.

domingo, 23 de setembro de 2018

HÁ QUANTO TEMPO EU NÃO FAZIA ISTO!...


Aberto um outro blog - altas-cavalarias (link na margem) - onde vou debitando alguns humores (bons e maus), achei por bem fazer uma página dominical. E quem melhor do que "este" para publicitar o início?

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

PARA QUEM CANTA O CUCO?

Andava eu no então chamado liceu, era necessário escolher uma alínea para prosseguir os estudos a nível superior. Escolhi a alínea E, que me levaria à advocacia. Mas não levou, uma vez que saltei da carruagem em andamento.
Li, mais tarde, um conto português, que passei a uma curtíssima banda desenhada, que demonstra bem qual o resultado dos pleitos, logo à partida.


terça-feira, 18 de setembro de 2018

QUANTO VALE UM ELOGIO...



Uma vez por outra, consulto a blogosfera que vale o gosto consultar. Eis quando deparo com um excelente texto do Prof. Doutor Salvador Massano Cardoso, trazida ao blog “4R-Quarta República”, em 14 de Setembro de 2013, intitulada "Trancoso...".
Nessa bonita peça literária, é feito um elogioso comentário a este livro “O Padre Costa de Trancoso”, o qual vai na 6ª edição.
Solicitei autorização para publicar neste modesto espaço essa peça literária, o que trago agora, ainda com a promessa de reproduzir uma outra, da autoria do Dr. Pinho Cardão, também colaborador do Quarta República, que dedicou um outro texto ao famoso sacerdote.

Salvador Manuel Correia Massano Cardoso é Professor Catedrático de Epidemiologia e Medicina Preventiva e Director do Instituto de Higiene e Medicina Social da FMUC, é ainda Especialista em Medicina do Trabalho pela Ordem dos Médicos e Membro Titular da Academia Portuguesa de Medicina (cadeira L),coordenador dos Cursos de Mestrado em Saúde Pública e do Mestrado em Saúde Ocupacional e ainda do Curso de Medicina do Trabalho da FMUC, Provedor do Ambiente e da Qualidade de Vida Urbana de Coimbra, Deputado à Assembleia da República (IX Legislatura), Presidente da Assembleia Municipal de Santa Comba Dão, Vice-Presidente do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida.

Segue o texto

TRANCOSO…
Tive que ir a Trancoso. O meu amigo não sabia que naquela vila histórica tinha vivido o famoso Bandarra, sapateiro e autor de profecias que fazem ainda hoje as delícias de qualquer um. Um notável que merece ser emparelhado ao lado dos melhores. Depois de termos chegado, fui à vida, cumprindo o que estava destinado. Ficou à espera, acabando por esperar mais do que o previsto. Quando entrei no automóvel vi que estava a ler. Disse-me que tinha dado uma volta. Não imaginava ver uma preciosidade que desconhecia.
Portugal tem muitos e maravilhosos tesouros que me enchem de alegria, de satisfação e de orgulho. Tomara ter tempo para viver e andar por todas essas terras, embrenhando-me nas suas ruas e convivendo com as gentes. Foi então que apontou, com muita satisfação, o livro, "As profecias do Bandarra". Tinha acabado de o comprar. - Comprei-o por causa da nossa conversa de há pouco. - Fez muito bem. - Mas espere, também acabei por comprar este, era o último. Mostrou-me a obra de Santos Costa, "O Padre Costa de Trancoso". Dei uma tremenda gargalhada. - O padre Costa, o homem que, segundo a lenda, deve ter feito mais filhos em Portugal, filhos feitos nos ventres de dezenas de mulheres. Um feito que lhe ia custando a vida mas que, devido ao contributo para o povoamento da região, acabou por ter clemência real. - Já o tem? - Não, por acaso não tenho, embora tivesse tido conhecimento da sua publicação. - Era o último que havia na livraria, mas eu ofereço-lhe. - Muito obrigado. Aceito com imenso prazer. Depois sugeri que fôssemos tomar uma bebida naquele belíssimo e histórico lugar. Passeámos um pouco e vislumbrámos belos edifícios, e espaços cuidados, embora a decadência do Palácio Ducal cortasse o coração de qualquer pessoa.
Não disse, mas pensei, quantas histórias devem andar por ali mortas de desejo de renascer nas almas dos visitantes. Quantas, meu Deus! Não me importava nada de as ouvir, de as ver, de as imaginar e de as guardar.
Soube-me bem a cerveja. Soube-me bem respirar aquele ar. Soube-me bem sentir o calor das muralhas.
Hoje, li, ou melhor, reli as "Profecias do Bandarra". Adorei. Tenho de regressar a Trancoso o mais breve possível, mas com tempo.
Ontem, comecei a ler o livro "O Padre Costa de Trancoso", padre a quem foi atribuído 299 filhos paridos de 53 mulheres. Hoje retomei a leitura. Gosto da narrativa, cuidada, rica e ilustrativa dos hábitos e costumes da história de Portugal desse período.
Uma das passagens diz respeito à conversa entre o padre Francisco da Costa e o seu amigo, o culto e respeitado judeu Mendo Pires, que, conhecedor das façanhas do clérigo, ia trocando impressões sobre o tema da dissolução dos costumes. Para o padre todas as mulheres serviam para satisfazer os seus instintos, justificando-se como lhe convinha. A páginas tantas, Mendo Pires afirmou que no que toca às solteiras o "meretrício parecia ser exclusivo dos padres". Surpreendido, o Costa pediu-lhe explicações. Foi então que o escrivão comentou uma passagem do Talmude. Uma descrição tão bela que não posso deixar de transcrever. "Cuida-te quando fazes chorar uma mulher, pois Deus conta as lágrimas dela. A mulher foi feita da costela do homem, não dos pés para ser pisada, nem da cabeça para ser superior, mas sim do lado para ser igual; foi feita da parte debaixo do braço para ser protegida e do lado do coração para ser amada". O padre Costa, insensível, "encolheu os ombros", mas eu não. Uma imagem destas, cheia de amor, rica de poesia e verdadeira fonte de pureza, não pode ficar escondida. Vou retê-la.
Afinal, como costumo dizer, adoro tropeçar em coisas belas e depois saboreá-las com prazer. Tenho que as partilhar. Porquê? Porque sim, porque merecemos desfrutar o belo, que é um dos alimentos das almas famintas.