quarta-feira, 10 de agosto de 2011

IGESPAR E MAGRIÇO - II

Lá emendou o IGESPAR a incorrecção referida no penúltimo post. Mas fê-lo apenas na data, retirando o ano de 1812; ou seja, sabendo que era uma incongruência, não houve nenhum historiador da casa que corrigisse o erro com a data efectiva, que eu ofereci de bandeja no meu e-mail e no meu post, com precisão do ano, dia e mês. Optou por simplesmenete retirar a data, apenas a data!
Assim, continua a distorção da conjugação de "visitado" com "fortaleza" (masculino em vez de feminino), a ausência do ano (pelo menos do ano), a explicação sobre se o castelo continua em ruínas até "à actualidade" e onde foram beber essa patranha de que o Magriço nasceu em Penedono!

terça-feira, 9 de agosto de 2011

IGESPAR E O MAGRIÇO

A propósito do meu post anterior, enviei para o IGESPAR um e-mail onde alertei para algumas incongruências, de entre as quais a data de nascimento de Alexandre Herculano, historiador que está a ser objecto de homenagem por parte daquele instituto.
No portal do IGESPAR, com o endereço referido no meu post, encontra-se:

"No século XV, ainda não totalmente com a configuração actual, o castelo é apontado como o local de nascimento de D. Álvaro Gonçalves Coutinho, celebrizado por Luís de Camões com a alcunha de "o Magriço". A história em que tomou parte pode considerar-se o paradigma da mentalidade cavaleiresca medieval, em que doze cavaleiros portugueses partiram para Inglaterra para, em torneio, defrontar outros tantos ingleses que haviam injuriado a honra de doze damas da corte dos Lancaster.
Visitado por Alexandre Herculano em 1812, a fortaleza de Penedono já se encontrava em ruínas, assim permanecendo até à actualidade. Em 1940, no âmbito das comemorações dos Centenários, promovidas pelo Estado Novo, o castelo foi alvo de intervenções de restauro. Alguns panos de muralha e torres, que se encontravam danificados, foram parcialmente reconstruídos, aproveitando-se a ocasião para lajear pavimentos e beneficiar os acessos. Novos trabalhos ocorreram em 1949 e 1953, mais vocacionados para a consolidação de estruturas, o que contribuiu para que o conjunto chegasse até à actualidade em relativo estado de genuinidade."

Como não obtive resposta, enviei um segundo e-mail, mais “durinho”, que reproduzo:

“ Ex.mo Sr.
Dr. GONÇALO COUCEIRO
Director do IGESPAR

Reporto a mensagem do dia 5 de Agosto, cuja leitura da vossa parte - se é que a teve - não mereceu qualquer comentário ou o simples acusar da sua recepção. Leva-me a crer que, se algum património não é devidamente cuidado, os próprios valores culturais históricos e a língua portuguesa também o não são.
Para além da incongruência apontada no e-mail anterior (repito, que se reporta), vejamos nesta simples frase aposta no vosso portal e relativa a este assunto:

"Visitado por Alexandre Herculano em 1812, a fortaleza de Penedono já se encontrava em ruínas, assim permanecendo até à actualidade."

Um lapso ortográfico - Em vez de "visitado" devia estar visitada, uma vez que conjuga com fortaleza, no feminino;
Um lapso de pormenor histórico - como é que Alexandre Herculano visitou a fortaleza de Penedono em 1812, se nasceu em 1910?! Até o podia ter feito, ao colo dos pais, mas não teria certamente elaborado os apontamentos que conhecemos;
Outro lapso de pormenor - se a fortaleza se encontrava em ruínas, V. Exª. ainda acha que "na actualidade" se encontra em ruínas?
Por outro lado, existe um erro histórico, que é considerar a mátria do Magriço em Penedono; mas este é um lapso que se propagou (propagandeou) sem bases científicas, a coberto do talante de interesses e de uns apontamentos de viagem do próprio Alexandre Herculano. O Magriço nasceu em Trancoso - tal como os cavaleiros ingleses do pretenso desafio dos 12 de Inglaterra , haja quem me contradiga na justa de documentos e de razões.
Enfim, se o primeiro e-mail não obteve resposta, este provavelmente não a obterá. Como diz o povo, "eu fico naquilo que me parece...", porque em muitas circunstâncias aquilo que parece...é! No entanto, Sr. Director, mande corrigir os lapsos apontados ou, se bem o entenda, pois está no seu direito, deixe-os tal como estão, tal como os monumentos que é suposto preservar.”

Desta feita, veio a resposta e a justificação, que aceito, conforme reproduzo a seguir:

“Exmo. Senhor
Relativamente ao lapso cronológico identificado na ficha correspondente ao Castelo de Penedono e à estadia de Alexandre Herculano, cumpre informar que foi de imediato solicitada aos nossos serviços a correcção da informação ali constante.
Por razões de gestão do sistema informático do IGESPAR, as alterações feitas ao conteúdo das fichas apenas estão disponíveis para os consulentes cerca de 24h depois, pelo que não pôde, ainda, proceder à sua verificação. O aviso de alteração, que o IGESPAR faz sempre e em qualquer circunstância a todos os que fundamentadamente as solicitam, também só é feita depois de disponível on-line, razão pela qual a resposta à sua reclamação não foi imediata, facto pelo qual nos desculpamos.”
Emendam a data, possivelmente os erros apontados, mas há um que resta corrigir: o castelo de Penedono, é de Penedono; o Magriço é de Trancoso, onde nasceu.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

MAGRIÇO NASCEU EM TRANCOSO











MAGRIÇO NASCEU EM TRANCOSO
O Magriço nasceu em Trancoso no último quartel do séc. XIV e não em Penedono, como se verifica em muitos escritos. De todas as razões, a mais importante é aquela que nos garante que o pai era alcaide de Trancoso a partir de 1360 e aqui travou a batalha de 1385 contra os Castelhanos.
Sobre algumas “enormidades” que encontro escritas e sobre a teimosia de alguns em seguirem um mero palpite atribuído (repito, atribuído) a Alexandre Herculano, que dá o Magriço como nado e criado em Penedono convido-os à leitura do que se segue, do princípio ao fim.
Sabe-se que o Magriço é pseudónimo de Álvaro Gonçalves Coutinho, que lhe terá sido atribuído, não por ele ser magro (o que não corresponde às capacidades de um cavaleiro que participa numa justa a cavalo) mas por ter nascido, tal como D. Afonso Henriques, enfezado e pouco cheio de carnes. As alcunhas eram sinalizadas, a nobres deste quilate, desde tenra idade ou ainda por feitos ou atributos em combate ou por características familiares. Porventura outras terão surgido após a morte ou por erróneas deturpações de vocábulos, como acontece com aquela de “GUERRILHEIRO” que a Câmara de Penedono lhe atribui (ao Magriço) no seu portal. Leia-se a primeira linha em:
http://www.cm-penedono.pt/magrico.htm
Terão querido dizer “GUERREIRO”?
É que guerrilheiro é todo aquele que pertence a um bando armado que ataca o inimigo fora do campo ou em emboscada (GEPB, volume 12 página 868) ou que pertence a bando de ladrões. Já guerreiro tem o significado de belicoso, aguerrido, guerreador, soldado, combatente (ver o verbete nessa mesma enciclopédia ou em qualquer outro dicionário).
A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, que é considerada obra de referência, “mete os pés pelas mãos”, designadamente na página 940 do Volume XV, nas entradas “MAGRIÇO.GENEAL”, da primeira coluna e “MAGRIÇO” da segunda coluna, talvez devido ao facto de não serem ambas do mesmo autor. Vejamos.
Referindo-se ao pai do Magriço – Gonçalo Vasques Coutinho” diz a obra citada: “Vasco Fernandes Coutinho, senhor do couto de Leomil, meirinho mor do Reino na comarca da Beira, vencedor dos Castelhanos na batalha que lhes deu junto de Trancoso, em cuja vila habitava (…) casou com D. Brites Gonçalves de Moura”, conforme se certifica na coluna um daquela página; na segunda coluna da mesma, expressa: “ Alexandre Herculano, visitando Penedono em 1867 (onde foram retirar esta data?), numa jornada pela Beira Alta, conseguiu apurar que o famoso castelo daquela localidade fora morada dos antecessores do Magriço”.
Que eu saiba e o que tenho lido, é que Herculano fez uma viagem pelo País em 1853-1854, partindo de Lisboa com o seu amigo e paleógrafo José Manuel da Costa Basto. O relato dessa viagem encontra-se descrito por ele próprio em “Scenas de um anno da minha vida e apontamentos da viagem” editado em 1934, com prefácio do Dr. Vitorino Nemésio. Já tinham sido publicados os mesmos apontamentos em 1914, no “Archivo Historico Português”, graças ao Dr. Pedro de Azevedo. Em ambas as publicações dos apontamentos retirados do caderninho de viagem de Herculano, já este havia falecido.
Sabem o que ele escreveu sobre Penedono? Que era uma povoação decadente e que, quanto ao castelo, “é uma espécie de grande torre sobre uns penhascos mais elevados”. A 14 de Agosto, um domingo, esteve nos Cancelos e dois dias depois em Numão, a 17 na Meda, lembrando aqui os nabos prodigiosos com mais de meia arroba, a 18 em Ranhados e em Penedono, regressando aos Cancelos para dormir.
Em Trancoso não foi bem recebido; melhor, a 20 de Agosto esteve em Moreira de Rei (onde não indicou certezas sobre a casa onde esteve D. Sancho II, antes do exílio), seguindo para Trancoso, onde nos apontamentos não indica especificamente a data das muralhas de Trancoso, apontando como sendo do século XIV ou XV(!). Sobre o castelo escreveu que “só parece primitiva uma espécie de torre de menagem”. Uma espécie? Mas que raio de historiador me parece este? Em Penedono diz que o Magriço residiu ali; em Trancoso não atina com a torre de menagem?
Não dormiu em Trancoso, talvez porque nenhum senhor da terra lhe ofereceu hospedagem. Foi para os Falachos (actualmente lugar da freguesia de Tamanhos, concelho de Trancoso) que disse ser de António Maria e que classificou como “a casa mais confortável do distrito mas sem opulência”. Só lhe faltou afirmar que teria ali nascido o Magriço.
Por outras pesquisas, designadamente em portais, publicações e sítios da internet que afirmam que o historiador ali esteve a mandar “palpites”, ficamos a saber (ou a pasmar) que foi em 1820 que Herculano esteve em Pendono (!!!) Não é possível chegarmos a tal ridículo! Veja-se, por exemplo nos sítios seguintes, que dão a visita em 1812:
http://mjfs.wordpress.com/2008/11/29/castelo-de-penedono-ou-castelo-do-magrio-viseu/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Castelo_de_Penedono
Esta mesma Wikipédia dá Herculano como nascido em 1810, o que é correcto, em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_Herculano, afirma a mesma que o homenzinho esteve em Panedono em 1812…! Haja uma alma caridosa que lhes aponte o erro, que eu não tenho pachorra!...
http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/70451/
Até o IGESPAR????!!!!! A dizer que Herculano, nascido em 1810 esteve em Penedono em 1812 e a afirmar que lá é que era a terra do Magriço?!
Se Herculano nasceu a 28 de Março de 1810, como é possível que, com 10 anos ou com apenas 2, já afirmasse ser Penedono a terra do Magriço? Ou talvez, por ter “dez anos” ou “apenas 2” a afirmação saiu assim gratuita?
Levantam-se três questões.
A primeira, relativamente à Grande Enciclopédia, quando se diz que Vasco Fernandes Coutinho foi vencedor da batalha de Trancoso e que residia nesta vila(a batalha deu-se em 1385) – “em cuja vila habitava”. Na coluna dois, já se afirma que “o famoso castelo daquela localidade (Penedono) fora a morada dos antecessores do Magriço”. Em que ficamos? Vivia em Trancoso ou em Penedono?
Vejamos: D. João I fez doação da vila de Penedono (com seu castelo) a D. Gonçalo Vasques Coutinho em 1408, informação que é corroborada pela Câmara de Penedono no seu portal da internet. Isto quer dizer que, se os antecessores do Magriço viviam no castelo, só podiam pagar renda, porque então era da coroa.
Repare-se bem: há um documento, com data de 26 de Dezembro de 1411 (referido no volume 9 da dita Encilopédia, a págs. 290, coluna 2) onde se diz que o Duque da Borgonha e conde da Flandres assinou uma carta de privilégios concedidos aos Portugueses por feitos do Magriço na Flandres, carta essa que se encontra arquivada na Torre do Tombo. Se Penedono passou para as mãos dos Coutinhos em 1408, e se presumisse que o Magriço ali nasceu após essa posse, quer isto dizer que o Magriço prestou o favor ao conde da Flandres com 3 anos de idade?
Em 1400 já era alcaide-mor de Trancoso Vasco Pais Cardoso. Álvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço, era filho do primeiro casamento do anterior alcaide-mor de Trancoso – Gonçalo Vasques Coutinho – e de Leonor Gonçalves de Azevedo, que residiam em Trancoso desde 1360, altura em que o Gonçalo Vasques foi nomeado alcaide-mor de Trancoso e onde disputou a batalha 25 anos depois.
Como é que o sr. Alexandre Herculano, se fosse agora vivo, justificaria o nascimento e a residência do Magriço em Penedono, se nessa altura o pai não era dono da vila e do castelo, não era alcaide de Penedono e lá não havia maternidade? Ao menos, se tivesse alguma hesitação, esta penderia entre Leomil e Trancoso ou Lamego, pois Gonçalo Vasques Coutinho era senhor do Couto de Leomil, também desde 1360 e alcaide de Lamego desde essa mesma data.
A segunda, quando afirma que Vasco Fernandes Coutinho foi vencedor da batalha de Trancoso. É errado! O vencedor da batalha de Trancoso foi Gonçalo Vasques (ou Vaz) Coutinho, filho desse Vasco.
A terceira, quando nos traz a notícia de que Alexandre Herculano, na sua visita a Penedono, “conseguiu apurar” que o famoso castelo daquela vila tinha sido morada dos antecessores do Magriço. Como é isto possível? Um historiador visita uma localidade, um castelo, e daí tira conclusões sem ver documentos, vestígios ou gravações que possam permitir sérias afirmações como as deste jaez. Como é que ele conseguiu apurar, baseado em quê?
Repare-se que Herculano afirma - alvitra, melhor dizendo – que era morada dos antecessores do Magriço; não diz que era morada ou local de nascimento do Magriço e não especifica quem eram os antecessores – pais, avós, bisavós, tetravós?
Pois bem, num documento autêntico, manuscrito do séc. XVI, que se encontra na Biblioteca Pública Municipal do Porto – e que o Sr. Herculano não viu, mas que o Dr. A. De Magalhães Basto viu, leu e divulgou em 1935 – encontra-se Trancoso como a terra de um dos cavaleiros e nada de Penedono (vejam “O Essencial sobre os Doze de Inglaterra”, de A. De Magalhães Basto, publicado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda , em 1986). Alvitra o autor que terá sido este ou outro documento idêntico que terá permitido a Camões levar este episódio dos Doze de Inglaterra aos Lusíadas pela boca de Veloso. Esta mesma afirmação faz a Grande Enciclopédia citada, na coluna um da página 290 do volume 9.
Lê-se ainda na Wikipédia”que
“A actual configuração do castelo remonta aos fins século XIV, quando D. Fernando (1367-1383) incluiu a povoação no termo de Trancoso.
(Pois bem, logo Penedono a pertencer a Trancoso até vésperas da crise 1383-1385).
“Diante da intenção da edilidade de arrasar o castelo de Penedono, os homens-bons desta vila insurgiram-se, logrando a sua autonomia. Esses domínios foram então doados a D. Vasco Fernandes Coutinho (Marialva), senhor do couto de Leomil, que fez reconstruir o castelo.
No contexto da crise de 1383-1385, tendo falecido na Primavera de 1384 o alcaide de Penedono, Vasco Fernandes Coutinho, sucedeu-o na função o seu filho, Gonçalo Vasques Coutinho. Leal ao partido do Mestre de Avis, foi-lhe confiado, no início de 1385 o encargo de chefiar as forças do Porto que conquistaram o Castelo da Feira. Posteriormente, distinguiu-se, por mérito, na batalha de Trancoso (Maio de 1385), o que lhe valeu a promoção ao posto de marechal. Acredita-se que, no castelo de Penedono, tenham nascido os filhos deste alcaide…”
(Alto aqui! Se os filhos nasceram no castelo, por que razão a edilidade daquela vila, como atrás se diz, quiseram arrasar o castelo? Para apagar os vestígios do “nascimento” ou para colher, das ruínas”, os do mesmo “nascimento”? E se o pai do Magriço foi alcaide de Penedono a partir de 1384, como se justifica que o Magriço participasse no torneio de Londres, que se situa entre 1390 (justas de Ricardo II de Inglaterra e de João de Gaunt) e 1395? Com 6 anos ou com 11 anos ?)
“Os domínios de Penedono e seu castelo são referidos, no século XVII, associados aos Lacerda, que então usavam honoríficamente o título de seus alcaides-mores.”
“O castelo foi visitado por Alexandre Herculano em 1812, que o descreve, à época, como já em ruínas.”
(Lá está outra calinada, o ano de 1812. Se Herculano nasceu em 1810 …)
“Em 1940, no âmbito das comemorações dos Centenários, promovidas pelo Estado Novo português, o castelo foi alvo de intervenções de consolidação e restauro de panos de muralhas e de torres, parcialmente reconstruídos, a cargo da Direcção Geral dos Edifício e Monumentos Nacionais. Novos trabalhos tiveram lugar em 1943 em 1953, permitindo que o conjunto chegasse até aos nossos dias relativamente bem conservado, mas ainda carecendo de obras em seu interior.”

A finalizar, tal como comecei.
Se Gonçalo Vasques Coutinho, alcaide–mor de Trancoso residisse em Penedono, vila que fazia parte do termo de Trancoso desde 1367 (ou seja, estava anexada a Trancoso), por que razão havia ele de viver na periferia da sua alcaidaria, numa terra que só lhe seria doada em 1408? E, caso o tivesse feito, como vivia ele num castelo que, nessa mesma altura, estava a ser reconstruído? E como se deslocava até Trancoso, onde exercia o seu “mandato”?
A única resposta que nos surgirá, deve ser: mas Herculano assim o afirma!
Olhem, meus caros, estimo que Herculano não tenha dito que as cortes de Portugal eram em Madrid ou em Salamanca!
Espero que, sem desprimor para os de Penedono (que também é terra que foi da posse dos Coutinhos), ser o Magriço de Trancoso. Em Trancoso, no palácio Ducal está um túmulo dos Coutinhos, em que se encontram lavradas na pedras as estrelas das suas armas. Lembro ou informo que o Magriço tinha armas próprias: três aspas de vermelho em fundo dourado.
O teatro Nacional de D. Maria II foi inaugurado, em 13 de Abril de 1846 com uma peça de Jacinto Aguiar de Loureiro com o título: " O Magriço e os Doze de Inglaterra". Vejam o original e descubram aí o termo Penedono e mandem-me recado.

A propósito: sabem como abre a cena primeira desta peça (que ganhou o concurso aberto em 1846)? Começa assim: "A Scena passa-se no alcácer do Castello de Trancoso(...)" Suponho que o sr. Alexandre Herculano terá assistido à mesma, pois é sua contemporânea. Mas, enfim, sabendo nós que Herculano tomou os apontamentos de viagem num caderninho, e que não fez tenção de os publicar (pois só depois de morto lhe fizeram esse serviço), não admira que as suas impressões ou palpites não se baseassem em investigação coerente, da qual era perito.
Espero, pois, que a cidade de Trancoso preste homenagem a esta figura através de estátua condigna e que levem à cena a peça de teatro que abriu o grande Teatro de D. Maria II.

terça-feira, 26 de julho de 2011

domingo, 10 de julho de 2011

DREAMS - COMO INTERPRETAR OS SONHOS





SONHOS

- Quando se sonha com um haver durante três dias a fio, é certo que ele se encontra no sítio com que sonhou.

- Quem sonhar três noites seguidas com dinheiro enterrado e não revelar esse sonho a ninguém, encontrará o tesouro.

- Quando se sonha com carne, é sinal de que alguém vai morrer.

- Sonhar com dinheiro é sinal de pobreza.

- Sonhar com excrementos é sinal de dinheiro.

- Sonhar com peixes é sinal de dinheiro.

- Sonhar com cobras é sinal de dinheiro.

- Sonhar com água muito limpa, são lágrimas.

- Dá sorte encontrar um trevo com quatro folhas.

- Sonhar com ovos é chocalhada (mexericos).

- Sonhar com um cemitério é sinal de herança.

- Sonhar com azeitonas é sinal de que se vai rece-ber carta.

- Quando se sonha que uma pessoa morreu, é sinal de que essa pessoa irá viver muito tempo.

- Sonhar que cai um dente é morte de parente.

- Sonhar com uvas brancas é sinal de lágrimas; se forem pretas, é carta.

- Sonhar com meninos é sinal de novidades.

- Sonhar com gatos é sinal de ralhos e zaragatas.

- Sonhar com cerejas é sinal de casamento.

- Sonhar com água suja é sinal de desgosto.

- Quem se vira na cama depois de ter sonhado, esquece o que sonhou.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A MULHER QUE MATOU OS FRANCESES


Em 16 de Outubro de 1810 as ruas de Trancoso foram pisadas pelas botifarras dos invasores franceses, que seguiam a toque de caixa ao mando do general Ney. Era uma horda de pilhadores, que davam ao diabo a cardada e profanavam lugares santos, destruíam e incendiavam. Natural foi a retirada dos moradores, prontos para livrarem o corpinho do embate com uma força tão desigual em número e armas. É claro que os de Trancoso deixaram as casas e as ruas desertas entregues à canzoada e a outros bichos de quatro patas para quem os franceses não representavam mais do que outros tantos de duas, prontos a correrem as botas pelas suas magras costelas. Da pouquíssima gente que teve a coragem de ficar ou a impossibilidade de fugir, contou-se uma mulher ainda nova, com a sua casinha na rua do Bandarra. Todo o seu receio não era superior ao ódio que nutria pelos saqueadores e intrusos, pelo que, no seu tino e inteligência, maquinou de forma a fazer das suas. Postou-se então à porta de casa, com a sua nesga de perna à vela, por via de endoidar todo o soldadinho que a visse. Na verdade, não era preciso bradar aos quatro ventos que ali havia fêmea liberal, pois os soldados, bufando como toiros, trocavam a loucura da guerra e a águia imperial pela doideira do regabofe. Nem sequer era preciso bate-língua, que a mulher não conhecia patavina de francês e eles outro tanto da lusa fala. Desse modo recebeu ela o primeiro concorrente, que a acometeu de improviso. Abriu-lhe a porta da casa e, por gestos, convidou-o a instalar-se. Assim cativou ela o homenzinho, já dobrado ao terno jogo dos prazeres e sem suspeitar que a hospedeira o desejava riscar do activo. Caído no logro, o soldado relaxou alguns receios, abandonou a arma a um canto e transformou-se em mansíssimo cordeiro, para inglória do seu imperador. Mal o apanhou de feição, que o mesmo é dizer desprevenido, a mulher desferiu-lhe no toutiço uma valente machadada, que o deitou por terra sem sopro de vida. Em seguida, transportou o corpo a pulso até ao poço (que existe dissimulado em quase todas as casas de Trancoso) e chapou com ele lá para dentro. Apagou com ligeireza os vestígios da façanha e preparou-se para a próxima vítima, saindo para a porta, sorridente como se nada fosse, a exibir a nesga de carne. Com esta artimanha arrumou cinco franceses e mais teria passado para o alçapão, não fossem os acasos da guerra fazerem os soldadinhos abandonarem a vila. Não deixaram saudades.

Santos Costa (do livro CONTOS TRANCOSANOS)

segunda-feira, 14 de março de 2011

O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO (LENDA)


Professou no Convento das freiras de Santa Clara, em Trancoso, a veneranda Madre Francisca da Conceição, natural de Freches, a quem são atribuídos muitos milagres por sua intercessão. Sobre a vida e milagres desta freira, falecida em 14 de Maio de 1711, o Padre Simão Cardoso Pacheco, da paróquia de São Pedro de Trancoso, escreveu uma interessante obra, levada á estampa no ano de 1738
Sobre as obras e milagres de Madre Francisca fez-se, ao tempo e após a sua morte, uma prova testemunhal, com vista à sua canonização, o que não veio a acontecer.
De entre esses milagres, remete-se a este trabalho aquele que, entre outros, diz respeito à vida do próprio convento, conforme com a fama de milagreira de Madre Francisca e do seu Menino. Foi o caso acontecido com a Madre Soror Isabel de S.João, celeireira do convento, que se viu, certo dia, sem pão na tulha para abastecer a comunidade. Varreu todo o grão que pôde na tulha mas, para desespero seu, faltava-lhe o equivalente a duas fanegas para a satisfação de uma semana.
A desconsolada Soror Isabel correu à cela de Francisca e expôs a esta, com a atrapalhação própria dos ansiosos, a falta do grão necessário ao fabrico do pão, que saía dos fornos com o peso de vinte e cinco arráteis cada um.
— Não há-de ser difícil arranjar essas duas fanegas que lhe faltam, Madre Soror Isabel de S.João— terá sossegado Madre Francisca.— Mande varrer novamente a tulha, porque muitas vezes fica entre as aberturas da madeira algum pão. Tudo junto, poderá remediar a falta.
Outra qualquer pessoa, que não conhecesse Madre Francisca, poderia julgar que aquele conselho não passava de zombaria. Tal não sucedeu com Madre Isabel de S.João que, logo,logo, correu até à tulha, cheia de fé, na companhia de uma das serventes. Trataram de varrer e sacudir quanto pão puderam descobrir nas fendas da tulha, nas frinchas do soalho de madeira e nos cantos. Porém medido, não chegava a uma fanega.
— Fiz o que aconselhaste, Madre Francisca — voltou ela, desesperada e com menos fé— mas apenas conseguimos menos de metade do que é necessário. Fazei com que o vosso Menino me acuda nesta necessidade.
— Vá, filha, aonde esse apareceu, poderá haver mais algum grão. Tenham paciência e varram bem a tulha outra vez, que Deus está por nós e não nos faltará.
Voltou a Madre celeireira à tulha, desta vez com fé redobrada. Ela bem sabia, e a servente tinha sido concorde, que a fanega anterior surgira por um milagre e que na tulha, varrida e bem varrida, não tinha ficado um único grão para amostra.
Mal entraram na tulha, a servente deixou escapar uma exclamação:
— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Nesta tulha não deixamos qualquer grão esquecido e agora vejo pão que nós não tínhamos deixado!
Sem grande dificuldade na busca dos grãos, var-reram mais uma vez a tulha. E, depois de medido, verificaram que ainda lá havia cinco alqueires, o bastante para suprir e sobrar a ração semanal.
A madre Isabel e a servente, com os olhos rasos de lágrimas, não se contiveram que não ajoelhassem no meio da tulha. Alma grande e admirável era a de Madre Francisca da Conceição para merecer a bênção do Senhor e a excelsitude da sua magnanimi-dade!