ABELHARUS. Feitiço inventado pela ficcionista de Harry Potter,
faz com que de uma varinha mágica ou enfeitiçadora saia um enxame de abelhas,
as quais podem até atacar o feiticeiro, pelo que na dita escola de Hogwarts é
ensinado aos alunos do 4º ano o “modus operandi” da coisa.
É claro que o poder se encontra na varinha de carvalho,
capaz de fazer com que o dito enxame se transforme em creme, prontinho a ser
vendido com a astúcia do vendedor da banha da cobra; ou, para ser mais preciso,
transformá-las em mel, vendidas com o rótulo “abelharus”, o puro mel de
carvalho.
ABONO DE
FAMÍLIA. Forma de assistência que é
enquadrada no esquema de segurança social, a que as bruxas não têm acesso (pelo
menos, com o cartão profissional que seria suposto terem, para além do número
de contribuinte, a que ninguém escapa). Também não precisam, porque o Diabo é a
sua Segurança Social. Enfim, tal como ao comum dos portugueses, às vezes até
parece que a Segurança Social é o diabo.
ABRACADABRA. É uma palavra de origem cabalística formada por
letras dispostas em pirâmide de seis linhas.
Com este título há uma comédia que passou ao cinema
dirigida por Kenny Ortega. Narra a história de 3 bruxas que têm a
(in)felicidade de serem transportadas até ao séc. XX, tendo de enfrentar três
crianças e um gato palrador, que são o cabo do trabalhos.
ACTORES. Os actores não gostam de interpretar a peça de
Shakespeare, MacBeth, porque nela se canta uma “canção das Bruxas”, o que atrai
o mal e o azar.
Já é longa a tradição em Montalegre, distrito de Vila
Real, festejar o dia aziago das «Sextas-feiras 13». Para a celebrar a tradição representa-se
uma peça de teatro, em que os actores que encarnam bruxas, duendes e demónios,
que vão assombrar a vila, são idosos e crianças do concelho, enquanto a
assistência popular fica suspensa do acto como pernas de presunto na cura.
ACTUAÇÃO. As bruxas costumam entrar pelos buracos das
fechaduras das portas ou pelos buracos nos telhados. Quando entram nas adegas,
utilizando o tal método da fechadura, bebem o vinho. Tocam pandeireta quando
dançam, cantam desafinadas como um coro de ébrios, soltam sonoras gargalhadas e
dançam à roda, de mãos dadas.
Quando pretendem embruxar alguém, apanham a terra da
pegada do pé direito que essa pessoa deixou, atam-na a um pano e atiram-na à
cova de um defunto. Assistir a tudo isto não é lá muito divertido.
ADIVINHAÇÃO.
Segundo a conceituadíssima Wikipédia,
o termo engloba tudo menos os números do euromilhões, o que significa “profecia,
previsão, intuição, palpite, pressentimento”, pois é “o acto ou esforço de
predizer coisas distantes no tempo e no espaço, especialmente o resultado
incerto das actividades humanas”.
A adivinhação não deixa de ser uma arte, neste caso
mágica, de descobrir o desconhecido através da interpretação de símbolos, como
é a “leitura” de nuvens, cartas de tarô, chamas e fumo, ossos de animais e
cartazes de autarcas municipais.
Quer isto dizer que as bruxas adivinham? É claro que
adivinham, pois têm a equivalência aos cursos técnicos profissionais e
profissionalizantes de astrologia, cartomancia, quiromancia, taromancia,
hepatoscopia, I Ching e numerologia, para só citar estes. Parece que elas possuem,
em doses maciças, os poderes sibilinos de Nostradamus, de Bandarra, mesmo do
Pretinho do Japão, e das previsões económicas do Banco de Portugal.
Numa sondagem que se realize, como é hábito, através
de entrevistas telefónicas em escolha aleatória, dará 10 por cento para os que
acreditam no acertar dos resultados de adivinhação das bruxas e outros 10 por
cento para quem creia no inverso. É bom que se diga que a diferença estará para
quem não sabe/nem responde ao inquérito, que por meu lado adivinho com um erro
máximo de amostra de 0,6 por cento para um grau de probabilidade de 99,9 por
cento.
AFOGAMENTO. O teste do afogamento era praticado por débeis
mentais sobre aquelas ou aqueles que eram julgados com poderes de bruxaria ou
feitiçaria. Deitavam a vítima num rio: se morresse afogada, não era bruxa, mas
lá se foi para o outro mundo; se se salvasse, então era bruxa e passava também
para o outro mundo, queimada viva.
Melhor método, e menos poluente, seria lançar a bruxa
sobre um insuflável e provar, com ou sem ressalto, o sim e o não da resposta.
ÁGUA. Não parece que as bruxas tenham medo da água, mas não
será decerto a sua preferência quando se trate de higiene. Provavelmente elas
terão completado aquele rifão popular que diz que a água não faz mal a ninguém,
desde que não sirva para lavagem de bruxa, não se afoguem nela nem a bebam.
Diz-se que tanto o senhor Diabo como as senhoras
bruxas não gostam da água a ferver; daí poderá dizer-se que bruxa escaldada da
água fria tem medo.
ALFINETES. Tradicionalmente utilizados na Bruxaria para atar
feitiços, colocar ou transferir um desejo em uma representação simbólica de
alguém, de um lugar ou de uma situação, designadamente para “picar” alguém à
distância, com objectos chamados de “vodu”.
Os mais usados são os alfinetes de cabeças coloridas,
pois cada cor representa um pedido particular, como é disso exemplo a cor
vermelha para a paixão ou a verde para a cura.
ALHO. Para quem queira afugentar as bruxas, nada melhor do
que trazer um rosário de cabeças de alho ao pescoço. O mesmo efeito se
concretiza ao mastigar-se um dente de alho.
Ressalva-se, porém, o odor do dito, que terá o condão
de não afastar apenas as bruxas.
ALIMENTOS. Embora este mesmo assunto seja abordado na entrada
“Culinária”, para abrir o apetite não me privo de o cozinhar aqui.
Demonologistas, inquisidores e alguns enciclopedistas,
queimaram as meninges para descobrirem o que comiam as bruxas fora da vista
desarmada. Quando elas confessavam práticas e comeres aberrantes, isso era a
maior parte das vezes devido à tortura dos inquisidores, ávidos para obter
confissões terríveis e assim lhes facilitar a redacção das sentenças. Dizer que
elas tinham por gastronomia qualquer mistela parecida com o menu de um cafre, é
pura especulação.
Serpentes, sapos, gafanhotos e até morcegos, não são
de todo ingredientes, que eu acredite; mais certo, bons nacos de presunto e
toucinho, vaca e carneiro assados, tudo regado com vinho do melhor, mesmo que
surripiado nas adegas da vizinhança.
Outros estudiosos, aventam que eram em tempos vegetarianas,
alimentação com ausência de carne, como era hábito em alguns costumes pagãos.
Terão então as bruxas apetência pela soja, tofu, algas,
castanhas e folhas de alface?
Esta teoria não pega, pois há quem jure ter visto uma
bruxa a passar ao estreito, num restaurante da especialidade, uma garoupa, duas
cavalas, uma embalagem de delícias do mar ainda congeladas e um pires de “jaquinzinhos”
sem arrotar.
Nas assembleias, o bode e as bruxas não se privam do
estendal no final da sessão, onde não faltam os garrafões de vinho e presunto,
nem tão pouco o sacramental cafezinho servido do termo e um cálice de
aguardente, da rija, uma vez que não há brigadas de trânsito por onde circulam
as vassouras.
ALTERNATIVA. Tal como acontece na tauromaquia, em que o toureiro,
bandarilheiro ou cavaleiro, são investidos nas respectivas categorias, as
bruxas também recebem a sua investidura; não em estoques, bandarilhas ou
farpas, mas porventura em varinhas, alhos porros ou vassouras voadoras, à moda
antiga.
Cabe ao diabo, arrogante e paternalista como é, a espadeirada
que outorga o diploma à neófita em final de curso. Nessa gala, que fará lembrar
a investidura de irmãos em capítulo de confraria, o fulgor da cerimónia acaba
em agonia moral, abrindo-se entre o bode e as fêmeas as núpcias de uma bacanal,
das fortes.
ANIMAIS. Um certo homem encontrou uma mulher montada num burro
ao contrário e com muitas galinhas à volta, que logo se transformaram em duas
lindas mulheres; mal ele se benzeu com a admiração, tudo desapareceu.
Por vezes, as bruxas aparecem nas encruzilhadas com a
forma de uma porca que se faz acompanhar de leitões de cor escura. O efeito
para um mortal num encontro imediato de grau xis como aquele, não consta sequer
do manual de instruções.
ANTÍDOTOS. Parece mentira, mas um rosário de alhos parece ser
eficaz como antídoto contra os malefícios da bruxaria. Também se julga com
idêntico êxito um ramo de alecrim e arruda, uma tesoura aberta, um chinelo
velho ou uma meia calçada do avesso. Quem quiser complicar a receita, poderá
juntar num saquinho algumas pitadas de rudo macho, espargo, mirra e mostarda.
Simplificará se o conteúdo passar apenas com umas pedras de sal.
Com toda a humildade, não asseguro a eficácia. Uma
ferradura atrás da porta, na grelha do automóvel ou na barra cama, parece ser o
antídoto indicado para afugentar o bruxedo e quem o pratica, mas poderá
fazer-se uma figa com os dedos indicador e médio à falta de um adereço mais
apreciável, que é o signo-saimão (signo-salomão). Deixo um aviso, caso queiram
servir-se dos dedos da mão: nada de esticar o médio e encolher ao mesmo tempo o
indicador e o anelar.
Não encontrei qualquer referência alusiva à eficácia
se a sogra estiver por perto. A sogra ou um fiscal das finanças, bem entendido.
ARRUDA. Mais conhecida é a Arruda dos Vinhos, vila portuguesa
do distrito de Lisboa. Porém, como este trabalho não é de âmbito corográfico, a
arruda que aqui se traz é considerada das ervas mais poderosas para combater
inveja e olho-gordo. A superstição receita: um galho de arruda junto ao corpo
ou na cozinha, calha para reter as energias negativas. As folhas secas servem
para preparar um chá bem forte e com ele lavar o chão da cozinha, pelo menos
uma vez por semana, para proteger a cozinha, a casa e deixar o chão lavado, do
género lava-tudo, que sai na publicidade como lava e encera, ainda com o
benefício das fragrâncias não alergénicas, sem fosfonatos e formaldeídos.
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