domingo, 7 de dezembro de 2014

DESENHAR AUTOMÓVEIS - 2

Neste lugar tenho deixado algumas confidências quanto à forma como trabalho em desenho e, por vezes, também em texto. Um e outro, são maneiras diferentes de aplicar a minha disponibilidade, porquanto comecei a desenhar aos quatro anos e a ler e escrever aos cinco, porque frequentei uma pré-escola particular em Alverca (do Ribatejo) antes de entrar na escola primária. No desenho, sei que rabiscava comboios e automóveis, enchendo as margens dos livros de meu pai, aqueles espaços em branco não cobertos pela mancha impressa. Uma locomotiva com as suas carruagens dava a volta à página inteira, não esquecendo o fumo da chaminé.
Porventura essa "forçada" aprendizagem precoce, entregue a uma professora já aposentada que se fartava de puxar as orelhas a meia dúzia de alunos a seu cargo, despertou-me o gosto de, ao longo da vida, desenhar e escrever ou fazer as duas coisas concomitantemente.
A propósito, quero dizer que nunca - mas nunca - me ocupo de um só trabalho de cada vez; ainda que haja um que me exija mais atenção e prazo, tenho de ter um outro de reserva, para não "enfastiar".
 
 
Posto isto, deixo mais uma imagem de um prancha adaptada de um trabalho publicado em outro formato sobre o "Estripador". Aproveitei a oportunidade de os inspectores terem de interrogar o dono de uma oficina, para pespegar em primeiro plano um "carocha" em mau estado.
A vinheta solitária acima, está na prancha abaixo.


 
Já me deu a ideia - e quando estava a escrever este post, aterrou mais uma vez - de pegar nuns acrílicos e numas telas e pintar quadros com automóveis de sucata, abandonados. Ainda não o fiz porque o que mais me chateia na pintura é ter de arrumar a tralha e lavar os pincéis.
Não sei por quê, como já afirmei aqui noutra oportunidade, há uma certa nostalgia quando me deparo com algum automóvel que já teve esse nome.
 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

COLORIR SOBRE PAPEL


Nas idas e vindas que efectuo ao arquivo onde guardo os trabalhos, o qual, tal como o meu escritório, se encontra no rés-do-chão da minha moradia, encontrei esta prancha, que mais não é do que uma adaptação que, há dois anos, fiz de uma Bd por mim publicada em "O Crime", sobre a vida aventurosa de Maria Feliz, chefe de um bando de assaltantes (mas não assassinos), que eu ficcionei de maneira a emprestar-lhe algum humor.
Para os mais atentos, lembro que estas imagens já surgiram neste blogue, com outros enquadramentos e formato, para além de coloridas em "photoshop".

Ora, é aqui que eu quero chegar. Esta ilustração que acima surge, não está - como soe dizer-se - editada e composta em computador, a não ser o scanner e o lettering. São três vinhetas, sendo a inferior, a maior, aquela que foi colorida com aguarela, a pincel; a primeira ainda levou uns retoques da tinta e por aí se ficou a prancha.
A determinada fase dos meus trabalhos como colorista com água e tinta (aguarela e guache) exercitei fazê-lo em papel encorpado, com alta gramagem, sobre mancha a preto impresa em impressora laser. O preto mantém-se e a tinta do original fica nele, sem nos causar problemas em esborratar.
Entendo que devo falar das minhas experiências na "técnica" que emprego nos meus trabalhos, pois tal disponibilidade pode servir para quem inicie ou necessite de esclarecimentos atinentes. Deixo a ressalva que, por outro lado, estas explicações possam avisar os mesmos iniciantes para ficarem a saber como "não se deve fazer".
Infelizmente para mim, nunca tive aulas de desenho, a não ser aquelas obrigatórias no liceu, onde aprendi pouco, que pouco me serve. Há, pois, muito diletantismo, experiência, tentativa de acerto e erro, ou vice versa, e é com franqueza que explico esta minha fraqueza.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

"A VIAGEM DO ELEFANTE" de JOÃO AMARAL

Trago hoje a este meu blogue um livro que considero de grande valia, por três razões e mais uma.
As três razões são: é uma obra que aborda um tema histórico, tanto do meu agrado; ter sido escrita pelo maior escritor português contemporâneo, que também é do meu agrado; ter sido adaptada e desenhada pelo execelente desenhador e autor de Bd João Amaral, que igualmente me agrada ler e ver mais uma vez. A outra razão, a "mais uma", prende-se com o facto de que é a primeira vez que José Saramago tem um livro seu adaptado a Banda Desenhada em Portugal (e possivelmente no resto do mundo).
Não faltou coragem ao João, para decidir esta adaptação, que mereceu elogios da Pilar, porquanto é uma obra exigente em termos de pormenores de época, que ele soube respeitar.



Não tenho qualquer dúvida de que "A Viagem do Elefante", em boa hora aproveitada pela Porto Editora, nesta versão, trará mais leitores para a obra de Saramago, assim como trará mais apetência de leitores para a Banda Desenhada.
O João é um Autor com grande capacidade de trabalho, que alia a simplicidade de comunicação, a amizade, a mestria com que elabora as vinhetas, o tratamento da cor e tudo o mais que consta da sua obra, de que esta constitui um dos expoentes, a uma bonomia e disponibilidade que nos garante que é um grande entre os grandes autores contemporâneos portugueses.
Mas não é só isso. É um autor dedicado à Banda Desenhada, presente em certames e lançamentos (de que o do meu livro é exemplo), acompanhado da esposa, a Cristina Amaral, que é uma excelente fotógrafa e, naturalmente, um apoio sempre necessário a quem dedica muito tempo a esta arte.



 
 
É um álbum com certa envergadura, essencial numa estante; direi que é uma excelente hipótese para quem o adquirir, para si, pensar também em aproveitar o ensejo para adquirir outro ou outros exemplares para oferta a amigos e familiares.
Tenho o grato prazer de deixar este post, porque o João não é um concorrente, mas um bom amigo e um bom companheiro de jornada nestas artes.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

DESENHAR AUTOMÓVEIS - 1

Tem-me servido este blog como repositório de trabalhos conluídos e inconclusos, esparsos, memórias, publicações, investigações e outras tarefas que realizei sobretudo com prazer. A escrita, a ficção, a investigação histórica, o jornalismo e a banda desenhada resultam de ferramentas inatas que eu utilizo com maior ou menor primor, suadas algumas, nenhuma ao ponto do sacrifício.
Eu gosto de desenhar automóveis. Com três ou quatro anos de idade desenhava comboios e automóveis, obviamente tão estilizados como o são os desenhos de crianças dessa idade e de alguns autores vanguardistas que querem fazer da BD uma "picassada" modernista.
Por isso, a peça que hoje levo a este meu espaço de arquivo. Sim, porque é um arquivo que eu disponibilizo a quem o queira ler ou ver, sem me importar se são muitos ou poucos, se apreciam ou
vilipendiam o estendal que aqui deixo ao "relento".
Como gosto de desenhar automóveis, o paradoxo é pretender desenhá-los em fim de vida - vulgo sucatas - tendo-o feito em algumas BD's.
É o caso desta prancha de vinheta única, que hoje aqui coloco, perdida entre outros papéis, pois que perdida a função que ela tinha na série que desenhei sob o título genérico "Se o meu carro falasse...".
Trata-se de um trabalhosem retoque final, executado com marcadores de diversas espessuras.
Um automóvel abandonado tem muitas histórias para contar.
Quando as vemos perdidas e abandonadas num espaço isolado ou em parque de sucateiro, há ali uma nostalgia que me prende particularmente a essas viaturas e imagino as alegrias dos seus proprietários na primeira viagem que fizeram com elas, os amores e desamores passados nos seus habitáculos, as peripécias e as contravenções, naturalmente assacadas à fragilidade humana, ao longo de milhares de quilómetros.
Voltarei com outros automóveis em artigos que intercalarei, porque para além de fazedor deste blog, sou o seu assíduo leitor.

domingo, 30 de novembro de 2014

LENDAS

Na sequência da peça colocada anteriormente, e ainda no campo das publicações por mim editadas sob a chancela "O Bandarra", aqui vem este livro que está também esgotado há muito, pois ao fim de dois meses já não havia stock (1.000 exemplares, de texto, com desenhos a cores e a p/b, impresso em papel IOR 90 gr., cosido à linha), e do qual, como é meu hábito, não pretendo fazer nova edição.
Trata-se também de um trabalho de campo, de recolha oral - e também bibliográfica - e tem 31 lendas, o que, para um concelho, já é bastante, uma vez que algumas estavam em risco de se perder na memória dos que partem.
O miolo tem uma ilustração de página, a preto e branco, para cada uma das lendas, e tem um caderno intercalar, em papel couché, com ilustrações a cores, mistas de desenho e foto, com a particularidade de serem montadas com tesoura e cola (à falta de photoshop ou outra ajuda análoga).



sábado, 29 de novembro de 2014

CRENDICES E SUPERSTIÇÕES

 
 
Quando não escrevo nem desenho, investigo para fazer uma coisa ou outra. De entre todas as formas de recolha de elementos, a pesquisa de campo é a minha preferida, designadamente quando procuro ruínas, vestígios do passado ou pretendo recolher o património cultural imaterial do povo.
Há uns bons anos atrás - cerca de 25 - deitei mãos a esta tarefa para colectar material que publicasse numa colecção que estava para encetar, então em parceria com o município.





 
 
Daí saíram três edições de mil exemplares cada, relativamente ao assunto em epígrafe - "Crendices e Superstições Trancosanas", que na primeira das edições se intitulava "Crendices e Superstições - no concelho de Trancoso".
A primeira edição publicou-se em formato de livro, abrindo uma colecção de livros com o tema "Cadernos de Trancoso", de que saíram sete títulos. Desta publicou-se mais uma edição, precisamente igual, apenas tendo mudado o aspecto da capa, que de cartão "cromocard" sem plasticização, passou a tê-la. Entre as duas, e nas edições que editei sob a chancela "O Bandarra" (de que saíram mais de duas dezenas de livros, incluindo o "Almanaque O Bandarra), mudei o formato e a capa, acresentando outras recolhas no miolo da obra, evidentemente ilustrada com desenhos e fotografias.
As três edições têm a particularidade de, na encadernação, serem cosidas à linha em vez da comum forma de colagem a quente. Os livros podem ser escandarados, que não rebentam.
Todas as edições estão esgotadas e eu, na minha teimosia de sempre, tenho recusado algumas sugestões que visam precisamente repor a obra, mesmo que não seja actualizada ou ampliada.
Trago aqui estas duas capas e este título porque pretendo fazer, neste espaço, um repositório do que fui editando.




domingo, 16 de novembro de 2014

O AUTOR DIVERTE-SE

Sim, é verdade. Acontece comigo. Se não houvesse alegria no que escrevo e no que desenho, não o faria. Os meus rendimentos têm outra fonte e essa bastaria. A BD, por exemplo, requer alguma disponibilidade e pachorra, coisa que não me tem faltado.
Por isso, principalmente por isso, nem tudo o que faço se destina à publicação em forma de papel impresso, como é o caso de algumas das adaptações que fiz em BD de livros escritos por mim, alguns deles já publicados, como é o caso do "Mangas de Alpaca", referido no post de 3 de Novembro.
Aí publiquei algumas pranchas coloridas, de entre as quais, a última, retorna a este post para exibir a alteração que lhe fiz, adaptando-a a outro formato e "deturpando a imagem" , à guisa daqueles espelhos da Feira Popular, côncavos e convexos, que ora nos "fazem" magros como espeques de feijoeiro, ora gordos como o Frei João Sem Cuidados.
Como então disse - e repito - segui o traço de Miguelanxo Prado, a sua forma caricatural de retratar o pequeno-burguês e os seus tiques.
Uma das passagens desse livro - e destas pranchas - prende-se com um caso real, que eu ficcionei nessa obra, e que reproduzo parcialmente.
Repare-se que há ~textos que têm gralhas, como é o caso de "avivelou" por "afivelou" e "desa" por "dessa", mas isso é facilmente suprível com a tecnologia digital, que vou dominando. Só dei conta da "ave gralhuda" depois de colocar o post e reedito sem corrigir. Nestas coisas não pode haver "stress".