terça-feira, 1 de março de 2016

ENCICLOPÉDIAS ALEGRES (5) - BRUXAS


EMBRIAGUEZ. Já escrevi atrás – e se não escrevi, faço-o agora – que as bruxas apanham pifos daquele tamanho quando participam nos festejos com o seu patrono. É, como se costuma dizer, de caixão à cova!
Mesmo assim, saem a acelerar com as varinhas, entram em derrapagem nos ares como qualquer jacto F-16 e não têm à sua espera as brigadas com o famigerado balão. Mesmo que as autoridades aí chegassem, com o seu poder de condão, transformariam o balão do álcool num mísero sapo ou numa enguia viscosa. E, por falar em enguias, há quem jure pôr termo à embriaguez, maxime aos seus sintomas, mergulhando uma enguia na bebida.
Cá para mim, esta receita só resulta se o embriagado der conta da manobra, cessando a sua vontade de beber; pelo menos, de beber onde a enguia mergulha.
Parece que os antigos franceses (mais propriamente os galeses contemporâneos de Astérix e Obélix, que bebiam à farta), tinham o método de curar a bebedeira comendo pulmões assados de porco.
Nos tempos de hoje há as receitas pataqueiras de beber café, mastigar grãos dos ditos, injecções de glicose e duche frio, ou ainda morder o pneu da roda traseira de um carro policial, para atenuar ou eliminar o porre (como dizem no Brasil). Possivelmente, uma outra receita com resultados mais práticos é a de contemplar, durante um minuto e sem piscar os olhos, uma fotografia do elenco governativo nas escadinhas do palacete de S. Bento.
ENDOR. Trata-se de uma aldeia bíblica com esse nome, situada no Vale de Jizreel, onde vivia uma bruxa, que passou a ser conhecida por Bruxa de Endor. Pode ler-se no Antigo Testamento (1 Samuel 28:7-25), que regista tratar-se de uma necromante que foi consultada pelo rei Saul quando este pretendia comunicar com o espírito de Samuel. A bruxa informou, supostamente através do espírito de Samuel, aquilo que ele já havia predestinado em vida, acrescentando porém que Saul iria morrer no dia seguinte. Embora não morresse no dia seguinte, faleceu passados três dias.
Segundo Orígenes, a voz de Samuel era, de facto, da própria bruxa, que possuía o dom da ventriloquia.
Na ficção, o nome da bruxa não conta para nada, pois ficou conhecido o lugar onde vivia. Assim, Endor é a designação da Terra Média em “O Senhor dos Anéis” e na série de televisão “Casei com uma Feiticeira”, a mãe da bruxa casada, e que faz e acontece ao genro, chama-se Endora. Também na saga “Star Wars”, há um satélite que dá pelo nome de Endor.
Andor (e não Endor) também é uma palavra cabalística quando pronunciada com ênfase dirigida ao governo pela boca da oposição.
 ENGUIÇO. O enguiço é sinónimo de quebranto e resulta de um mau-olhado ou de bruxaria. Infelizmente, para os enguiçados, não se resolve com doses de penicilina, nem se avalia com ressonâncias magnéticas sob receita do médico de família.
Ninguém se admire, pois, que o enguiço está em Portugal a passar férias: no Algarve, a banhos; na Serra da Estrela no bate-cu da neve; no Centro Cultural de Belém a contemplar a arte e no Parlamento quando precisa de tirar uma soneca. Move-se numa “geringonça” licenciada pelo IMTT e pela Troika.
Como enviar o enguiço para além das fronteiras de Schengen? (Para quem não saiba, Schengen é uma localidade luxemburguesa situada nas margens do rio Mosela e não uma cidade da China, como o próprio nome parece indicar). Não sei, é a resposta. Se o soubesse, espantaria o que me atormenta.
A convenção da arte do feitiço recomenda a consulta a outra bruxa ou feiticeira diferente da agente causadora do malefício, na esperança de que tenha poder para desenguiçar o paciente. É interessante especular relativamente à forma como a dicotomia bem e mal se encontra sob o poder das bruxas.
Consoante a clientela e o pedido, assim determinam, umas e outras, a borrasca e o bom tempo, tal como a roda dos advogados que ora acusam, ora defendem. É evidente que, em ambos os casos, com facturação e sem IVA incluído.
ERVA-MOURA. Trata-se de uma planta de mau agouro e, ainda por cima, tóxica, utilizada nas poções das bruxas. No Brasil chamam-na mata-cavalo, pimenta de rato ou aguaraquiá, mas o problema dela não está na designação. Parece que era utilizada contra os espíritos malignos, cobranças fiscais e das dívidas através do Pepex (sendo que este último também se afigura um preparado do caldeirão).
Avisa-se que as poções só devem ser feitas por profissionais e não devem ser tentadas em casa, mesmo que se possuam os ingredientes de sodalita, turmalita, ametista, pêlos púbicos de Belzebú ou ainda pêlos da cauda de touro saído vivo da arena de Barrancos.
ESCRITA. Tal como a linguagem dos contrabandistas quadrasenhos (Sabugal), não entendida pelos leigos e estranhos ao círculo da candonga, a escrita dos bruxos e bruxas também não podia ser lida por qualquer letrado. Talvez o único que lhe ferrasse dente era o tal Jean-François Champollion, aquele que conseguiu ler naquelas cobras, olhos e passarada da Pedra de Roseta. Mas ele não se dedicou a isso e nenhum editor lhe encomendou o trabalho de tradução.
Pois bem, a escrita do bruxedo rege-se pelo alfabeto tebano e não consta que tenha sido alterada pelo acordo ortográfico de 1990. Tal alfabeto, a que se refere Cornellius Agrippa tem origem, como o seu nome indica, na cidade de Tebas e é semelhante ao alfabeto etrusco, que não facilita nada. Certas obras de Lobo Antunes e de outros congéneres teriam o mesmo efeito se fossem escritas segundo aqueles abecedários.
ESPELHOS.
Um dos contos recolhidos pelos irmãos Grimm fala da rainha má e da sua enteada, a Branca de Neve. Certamente as visitas da rainha ao seu espelho, as perguntas que invariavelmente lhe fazia, todos as sabem: “Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém mais bela do que eu?”
Também não é sinal de sorte ter um espelho partido em casa.
Este espelho da rainha má é agora utilizado pelos governantes, os quais, à socapa, se dirigem ao dito e questionam também com a mesma desfaçatez e despudor: “Espelho meu, espelho meu, existe em Portugal quem governe melhor do que eu?”
Não se sabe quais as respostas do espelho, mas pelos vidraceiros que recolocam os que são partidos na Rua Gomes Teixeira, verifica-se que os esclarecimentos não agradam nada.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

CONTOS DE AMOR E DRAMA - volume 1


Acaba de me ser entregue, pela gráfica, o primeiro volume de uma série que tem como título genérico "Contos de Amor e Drama". É em formato A5, tem 206 páginas e, em pórtico de cada conto, há uma ilustração alusiva, das quais aqui reproduzo três. Este primeiro volume reúne 23 contos, nem todos semelhantes em tamanho.

Como já tive oportunidade de referir em outra ocasião, publiquei durante uma década mais de uma centena de contos numa revista feminina de grande tiragem, para além de outros que fui publicando em jornais e revistas de diferentes segmentos. Para além disso, tenho alguns contos inéditos e outros na cabeça que entrarão na fornada quando tiver pachorra para isso.

Agora, imaginem: feitas as contas, a coisa dá para umas duas mil páginas (2.000), com letra em corpo 11 e mancha larga, no formato que já indiquei. Isso quer dizer que decidi dividir a coisa em volumes, todos eles de 206 páginas.
Não se iludam com o título, porque há contos de amor e paixão, mas há-os de desamor, drama, traição, de guerra (1ª guerra mundial e guerra colonial), históricos (séculos XII, XIII e XIV), policiais, ficção científica e outros de aventura, tendo em comum, isso sim, o amor e o drama.
Já foi para a gráfica o 2º volume, mas já estou a trabalhar no 4º, (o que quer dizer que o terceiro está  concluído), uma vez que tenho de produzir todas as ilustrações e são muitas.
A tiragem é limitada e não corre pelos círculos comerciais normais, nem mesmo através da internet ou pelo correio.
Achei que os dispersos publicados em revistas e jornais se  perdem e, com essa hipótese, decidi  juntá-los e guardá-los neste formato. 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

ENCICLOPÉDIAS ALEGRES (4) - BRUXAS

DANÇAS. Danças com bruxas parece ser um sugestivo título para um filme candidato a mais de sete nomeações para os Óscares.
Com esta ideia peregrina, resta-me acrescentar que as bruxas costumam dançar com o diabo, nuas tanto da cintura para baixo como para cima. Também tocam pandeireta e, possivelmente, poderão aparecer em festival da eurovisão em forma de girls band.
“Depois da pança, vem a dança”, parece ser o axioma das assembleias. O banzé dos tamborins, rabecas e pandeiretas, segue-se a um repasto bem servido por qualquer imitação de cozinha com três estrelas Michelin, cujo menu acho por bem não mencionar. Desnecessário será dizer que não poderão encontrar esta ementa nos cardápios do famoso Barnaby’s de Nova Iorque. Presumo eu.
DEDOS. São os instrumentos mais usados e utilizados pela malta do gamanço nos eléctricos 15 e 28, contrariando a superstição que diz vir a ser músico a criança que tiver dedos longos e ágeis. Também diz a crença que será desonesta a criança que tiver o dedo indicador tão comprido como o médio, dando ainda a hipótese que deverá também ser político, de preferência deputado. Se a crença não do diz, haverá por aí escrito algures que é hábito dos políticos cruzarem o indicador e o médio atrás das costas por cada vez que façam uma promessa. Executam esse gesto, depois que se encontram fadados para este regime de promete e não faz, quando é pela positiva, e faz quando não promete, quando é pela negativa, vendo assim cumprido, mesmo com os requisitos mínimos, os sonhos de menino.
Um senhor chamado M. Krout contou 5.000 gestos diferentes para as mãos, cada um correspondente a uma expressão verbal utilizando os dedos. Há gestos que não revestem propriamente formas de comunicação, como é o caso da pouco higiénica passagem dos dedos pelas cavernas do nariz. Quem limpar “macacos” na Líbia e na Síria significa um convite sexual e se colocar o polegar e o indicador nas duas aberturas nasais está a insultar os nativos com algo semelhante a “vá para o diabo que o carregue”.
Nem é dos livros das bruxas que se extrai mais esta. Não se devem fazer estalidos com os dedos para chamar os empregados de balcão nos Estados Unidos ou no Japão, porque é ofensivo e tido como desprezo. Nem se forme  o V de vitória com os dedos na Austrália, pois significa que os está a mandar “abaixo de Braga”. E também não se apresente a um italiano com as mãos juntas, como se estivesse em prece, e com os polegares erguidos. É como se estivesse a chamar burro ao transalpino; nem exiba a um grego a palma da mão aberta com os dedos esticados, porque é muito ofensivo (gesto que se chama “moutza”), pois quem o fizer vai ver-se grego para justificar a “sacanice”.
DEGRAUS. O que têm a ver as escadas com as superstições, para além daquela que não recomenda passar por baixo de uma?
Acredita-se que se deve subir um degrau, um patamar ou para uma cadeira, na passagem de ano, para que a vida ganhe novo impulso positivo; mas deve-se fazê-lo com o pé direito primeiro. Não se promete que suba na carreira, principalmente se estiverem “congeladas” as progressões na dita.
DENTES. Embora possuam a dentadura completa, original e não placa, nos dois arcos maxilares, não se livram as bruxas de aparecerem na iconografia da classe sem uma série de incisivos, caninos e pré-molares quando executam aqueles sorrisos desdenhosos. Há até receitas na internet (não há receita que lá não esteja, seja para o que for) que ensinam a escurecer os dentes para o dia das bruxas. Para quem não queira andar com as pinturas na dentição, existem à venda uns moldes que incluem aparelho ortodôntico, gengivas com parodontose e falta de dentes, com eles cariados ou ainda com uma estrutura irregular a imitar Mário Centeno, o ministro das Finanças.
Nós sabemos que, na maioria das pessoas, os dentes que substuíram os de leite celebraram um contrato de curta duração sem cláusula de rescisão. Ainda nesse contrato está firmado que nenhum político deverá utilizá-los para morder o adversário, se bem que tenha vontade de lhe ferrar uma dentada nas nádegas, deixando essa tarefa ingrata à língua que, em contrato próprio e em regime de voluntariado, tanto serve para lamber botas como para vituperar todo o bicho careto que não faça parte da sua bancada.
Os dentes deviam ser numerados, mas não numa forma sequencial, identificando uma espécie de NIB ou IBAN de cada indivíduo. Isto facilitaria o levantamento de numerário nas caixas multibanco, a abertura das portas de casa e do carro, abrir o PIN do telemóvel ou como password do computador e o acesso ao portal das finanças para registo do e-fatura. Bastaria o titular sorrir como o fazem as apresentadoras nos salões de automóveis quando se aproximam os mirones para verem a viatura e a modelo.
Não recomendado este sistema, como é evidente, a quem possua placa completa ou implantes dentários com ou sem parafusos de titânio. Perder uma dentadura para esta lhe ser roubada, seria pior do que possuir o famigerado cartão multbanco e o seu código de acesso.
De tal forma os dentes estão ligados às bruxas, como a língua portuguesa actual ao novo acordo ortográfico, que se dá o nome de bruxismo ao tique daqueles e daquelas que passam grande parte do dia a ranger os dentes.
DIABO. Diz o povo que o diabo quando anda entre as bruxas dá pelo nome de “Zângão”. Também é chamado “bezerro dos cornos pretos” ou “tinhoso”. Junta-se com elas nas encruzilhadas onde não esteja brigada de trânsito em operação stop, todas as terças e sextas-feiras. Não consta que qualquer deles tenha participado nas meritórias campanhas do Banco Alimentar contra a Fome.
O cliché do “cornudo” é a representação como bode de dois ou três cornos, retorcidos como os dos carneiros, patas com duplo casco, cauda e muito pelo no corpo. Presidem assim às cerimónias do “sabat” , obrigam as noviças a beijá-lo nas nádegas e unem-se carnalmente com as companheiras em bacanais extravagantes, seguros de que não há delatoras nem algum “paparazzo” intrometido. Maior regabofe não vai pelos lupanares mais desbragados, nem mesmo pelas noites mais acaloradas do Lupanar de Pompeia.
Quando faz chuva e sol ao mesmo tempo, diz o povo que o diabo está a dançar e a cantar com as bruxas. Há até quem aposte que Gene Kelly e Stanley Donen se basearam neste costume para levarem à tela o Singin’ in the Rain (Serenata à Chuva).
DINHEIRO. Se um grilo dentro de casa fosse sinal de dinheiro, como reza a superstição, certamente as lojas dos chineses já teriam expostas centenas de gaiolas com os bichos lá dentro. Digo isto porque, para além de venderem tudo menos a Torre Eiffell e a dívida externa portuguesa, os chineses aqui estabelecidos, na sua terra natal também têm uma superstição a confirmar que o pouso de um grilo numa pessoa (no caso, um chinês na China) significa muita sorte. Suponho que a ser acertada a teoria popular, naquele edifício do Terreiro do Paço de cor amarela, onde se assenta o antigo ministério da Fazenda, teria forte e sonante cantoria toda a noite – cri,cri,cri,cri….
Mais eficaz me parece esta: para que se não acabe o dinheiro em casa, guardam-se cachos de uvas pendurados.
Para quem deseja contactar uma bruxa à moda antiga no intuito de conseguir o vil metal, é melhor tirar daí o sentido e procurar por outro lado: é suposto e publicitado resultar a consulta a “astrólogos” do tipo mestre Fati’s, professores Karamba’s, Saco’s e Mamadou’s e outros tarólogos que prometem confidência mais absoluta que o tão apregoado sigilo bancário ou o propalado segredo de justiça.
Já para afugentar o bruxedo, basta trazer uma moeda no bolso, desde que esta tenha uma cruz desenhada, o que não resulta com as moedas do euro, uma vez que o BCE (Banco Central Europeu) não preveniu esta necessidade.
É bom lembrar que as bruxas não recorrem ao rendimento social de inserção. Ou recorrem?
DONINHAS. Estes simpáticos bichanos trazem consigo a má reputação de outrora personificarem as bruxas e executarem à risca as suas missões, a exemplo do que acontece com as finanças portuguesas e a troika. Daí também correr o alarde de que ninguém consegue apanhar uma doninha adormecida.
Avizinha-se mau agouro de alguém se cruzar com uma, principalmente se ela fugir para a esquerda (o que se tornou moda em vários tipos de fuga) e se for de cor branca.
DÚVIDAS. Segundo a crença, que se julga provir do judaísmo, deve-se contar os botões do casaco que se veste na oportunidade em que surge uma dúvida ou uma decisão importante. Se a contagem somar um número par, a decisão que se tomou está correcta; se for ímpar, deve tomar outra.
No entanto, as bruxas não usam casacos com botões, mas nem disso precisam pois, tal como um certo político português, nunca se enganam e raramente têm dúvidas.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

ETNOGRAFIA, TEXTO E DESENHO NA BMEL (GUARDA)

A BMEL - Biblioteca Municipal de Eduardo Lourenço -  na Guarda, convidou-me a apresentar três sessões sobre os temas em epígrafe, sendo que duas sessões eram destinadas aos mais novos: da parte da manhã, a turmas do 4º e 5º anos e de tarde a turmas do 6º ano, num total de alunos superior a uma centena. A última foi dirigida ao público adulto.
A iniciativa decorreu em torno do meu mais recente livro - As Lendas do Distrito da Guarda - que eu escrevi e ilustrei, mas foi também pretexto para falar de desenho e de banda desenhada.


A BMEL está a proporcionar à comunidade a divulgação de autores regionais e nacionais, em todos os âmbitos do livro, sendo muito activa e diversificada nesta actividade, colocando o meio escolar em contacto com autores, editores e académicos em geral, estimulando, como deve ser, os jovens (e até os menos jovens) para a cultura e a leitura.


Foi assim proporcionado a mim, como autor e editor, o contacto com os leitores, principalmente os mais jovens em idade correspondente aos anos lectivos participantes, falando-lhes do porquê, do como e onde sobre o texto e a imagem,


Nada é mais gratificante para um desenhador do que desenhar para um público tão atento e interessado.


Principalmente quando se apela à participação desse mesmo público e ele a aceita de bom grado.




E ainda quando se explica como se faz uma banda desenhada, desde o esboço inicial...


... até ao produto final, passando por explicação de todas as fases de tintagem e arte final, colorido, impressão e acabamentos.

Nada é tão gratificante como ver o interesse que estes jovens demonstraram, a sua participação activa, as questões pertinentes que colocaram, a atenção que dedicaram à acção.

Iniciativas como as desta Biblioteca Eduardo Lourenço e das Escolas envolvidas, interessam à divulgação da cultura portuguesa, aos escritores e desenhadores portugueses, ainda mais do que amostras e mostras, workshops (que têm mais de shops do que work) e outras festivalidades que levam até si sempre os mesmos e não atingem o público alvo na idade em que a formação é pedra basilar de futuros.
Um grande obrigado à BMEL, designadamente ao Dr. Américo Rodrigues, à Dra. Ana Luísa e ao Dr. António Oliveira, ainda extensivo aos professores que acompanharam os alunos e às respectivas Escolas. Um obrigado ainda maior a todos os ALUNOS, público atento e participativo, a quem tive o grato prazer de falar.
(Estas fotos foram extraídas do Facebook da BMEL, a quem presto homenagem de gratidão).

sábado, 23 de janeiro de 2016

ENCICLOPÉDIAS ALEGRES (3) BRUXAS

CAÇA ÀS BRUXAS. Quando se fala em caça às bruxas sem se referir a políticos e à política, alude-se à ignominiosa perseguição religiosa e social que começou no final da Idade Média e atingiu o seu apogeu na Idade Moderna, por se achar que as bruxas eram tidas como satânicas. Naquela paranóia instituída, queimavam então as pobres mulheres em fogueiras para as castigar e “purificar”.
A caça às bruxas, tal como outros tipos de caça com o seu “Manual do Bom Caçador” ou “O Manual do Caçador Furtivo”, possuía também um livro de instruções do género faça você mesmo, se puder. Tem por título Malleus Maleficarum, ou "Martelo das Feiticeiras", publicado em 1486, originalmente escrita em latim pelos monges dominicanos Kramer e Sprenger. 
Nesta obra, os capítulos estão recheados de assuntos e questões como estas: se os íncubos e os súcubos podem conceber crianças; se as bruxas que copulam com demónios; se as bruxas que são parteiras matam de diferentes maneiras as crianças concebidas no útero, e tentam um aborto, ou se não fazem isso, oferecem aos demónios os recém-nascidos, entre outros assuntos de semelhante jaez.
Se em vez daquela trapalhada, os fradinhos rotundos, ardilosos e implacáveis, tivessem escrito uma enciclopédia alegre ter-se-ia poupado muitas vidas e, com a legalidade da profissão, muita receita fiscal entraria nos cofres do erário público. Já não conto que me poupariam muito trabalho, pois para fazer esta edição bastar-me-ia chegar à net, copiar e colar.
O primor desta obra “ Martelo das Feiticeiras” teve direito a bula de Inocêncio VIII, “bispo, servo dos servos de Deus, para eterna memória”.
Se não queimaram aquela tralha toda, ainda restam por aí alguns exemplares, mormente traduzidos e dispostos para downloads na internet.
CALDEIRÃO. Um dos símbolos da actividade, geralmente com água a ferver, onde se juntam alguns corantes para dar efeito, bem como ervas e fauna rasteira vária, tais como asas de morcego, rabo de escorpião e sémen de unicórnio. No entanto, trata-se de um instrumento mágico tão importante como é o estetoscópio médico para um clínico que mostre estar em serviço. Representa o ventre da deusa e o útero feminino. O seu tamanho deve ser um pouco menor que uma das panelas do restaurante El Celler de Can Roca.
Decerto não confundir este caldeirão com o da lenda que atribuiu o seu enchimento de ouro através do arco-íris, porque se fosse real já teria na periferia os auditores da Goldman Sachs, os mercados bolsistas e outras organizações sem fins lucrativos.
CALENDÁRIO. Os encontros das bruxas em conciliábulo decorrem ciclicamente nos dias de São João e de São Tomás, nas vésperas de Natal, às sextas-feiras e sábados. Estes seminários têm lugar nas encruzilhadas, nas pontes de pedra em decrepitude (e não faltam por todo o lado) ou nos poços abandonados. Às terças-feiras é dia de folga para o serviço, pelo que andam as bruxas à solta. O que não quer dizer que não actuem!
CASAMENTO. Agora é que são elas! Sobre o casamento há tantas superstições que, se fossem levadas a legislação, havia por lá mais artigos do que no Código Civil (e este leva qualquer coisa acima dos dois mil e trezentos). Por isso, estão a ver, pela rama é que eu vou passar este verbete, uma vez que não pretendo uma enciclopédia alegre de solteiros, casados e divorciados.
Vejamos, só para mata-bicho.
Quer casar em Maio? Marcou a boda para um sábado, principalmente se neste dia decorre o aniversário de um dos noivos? Não o faça. Prefira casar a uma quarta-feira, pois é a superstição que o recomenda e o melhor mês é Junho, por ser dedicado a Juno, fiel esposa de Júpiter. Outro conselho: deve ser o noivo a fechar a porta do quarto na noite de núpcias.
Victor Hugo chegou a afirmar que o casamento é um romance no qual o herói morre no primeiro capítulo.
Começando do princípio, diz a crença que não se deve varrer os sapatos e os pés dos jovens solteiros, pois é sinal de que não casarão e que, se uma pessoa solteira ouvir uma vaca berrar, deve meter uma das mãos na algibeira, para assim vir a casar cedo.
Acertado o casório, pois o namoro não deve ser prolongado como o do Sapo Cocas e da Miss Piggy, a escolha do vestido é também importante, segundo a crença. Para já, deve ser de seda, porquanto o cetim é considerado aziago, enquanto o veludo pressagia pobreza. O véu foi criado para evitar que os espíritos malignos cobicem a noiva. Se não sabiam esta, ficam a saber.
O cortejo nupcial deve seguir para a igreja por uma rua e regressar por outra, porque é de mau agoiro ir e vir pela mesma. Evitem cruzar-se com um porco ou com um funeral, mas acreditem que será benéfico aparecer um gato preto ou um limpa-chaminés.
No Minho, em recuados tempos, os noivos seguiam para a cerimónia em carros de bois enfeitados com campainhas. Naquela espécie de limousine, o noivo devia ter o cuidado de ir para a igreja com as pernas para fora e voltar da cerimónia com elas para dentro, como um paxá.
Perguntará algum leitor, com pertinência: então, onde atavam os amigos a tralha da lataria no veículo nupcial, que dizem dar felicidade? No carro de bois, não, porque a coisa andava tão devagar como se estivesse numa película de Manoel de Oliveira; depois, com tal chinfrineira de rodados, mal se dava pela chocalheira das latas. Pois bem, para solucionar essa questão, atirava-se literalmente um sapato ao noivo, que o devia apanhar para o colocar aos pés da cama, como símbolo de autoridade.
A primeira fatia do bolo de casamento deve ser cortada, em conjunto, pelos noivos, sob pena de não haver descendência se só um deles o fizer. O corte da fatia por ambos simboliza a partilha de tudo entre si.
Para terminar o arrazoado, mais alguns dos avisos da senhora superstição.
Se alguém, por distracção, calçar uma bota e um sapato, é sinal de que se desmanchará um casamento na família. Pior do que isto é saber-se que a crendice larga enfaticamente que o primeiro recém-casado a subir para a cama na noite de núpcias é o que primeiro morrerá, havendo idêntico desfecho para aquele que apagar a luz do quarto. Temo que as superstições deste jaez, desta feita e através destas perplexidades, façam com que na noite de núpcias ambos se estendam no chão do quarto e de luz acesa.
Enfim, com tantas recomendações, especialmente as que omiti aqui, é caso para considerar as palavras dos mal-intencionados que dizem chamar-se santo ao casamento porque conta com inúmeros mártires.
CASTANHAS. Comer muitas castanhas provoca piolhos na cabeça, principalmente se forem cruas, mas quem as comer no dia 1 de Maio ficará isento de dores de cabeça durante todo o ano.
Não é fácil encontrar uma castanha de três bicos, mas se aparecer esta gema, deve guarda-se porque protege das bruxas e das traças, possivelmente com protecção extensível às penhoras e a beijos ou abraços de políticos em campanha.
CEBOLAS. As cebolas têm um receituário na superstição amorosa quase equivalente ao que têm na culinária. Utiliza-se a cebola roxa para afastar rivais, machos e fêmeas, e qualquer tipo de cebola para ajudar na escolha do namorado ou namorada, através dos rebentos que a primeira deitar.
Também se usam para curar doenças, abrindo-se ao meio e deixando-se sobre um móvel do quarto do enfermo até este curar. Acredito que resulte de uma ou de outra forma: ou cura mesmo ou, com o pivete a podre, obriga-se o doente a dar alta a si próprio e sair dali a sete pés.
É superstição antiga dizer-se que se tornam insensíveis as pancadas da régua da professora nas mãos dos alunos, se se esfregar na palmatória uma cebola descascada.
Esta, eu posso desmistificar. Um dia, na turma da primária, um grunho passou a polpa de uma cebola pela régua da professora, pois teria recolhido a receita de uma avó. Quis o acaso que fosse ele a experimentar o “amaciado” instrumento de tortura escolar e, todos nós, vimo-lo sorrir até levar a primeira pancada numa das mãos. Com alguma perplexidade, nós e ele (mais ele do que nós) assistimos aos gritos e aos saltos como se o estivessem a capar.
CHAMPANHE. As superstições são vividas ao longo do ano; no entanto, com a entrada de novo ano, são inúmeras as que são seguidas e atendidas por larga maioria de pessoas, principalmente ante, durante e após as doze badaladas do dia 31 de Dezembro. Abre-se o dito, mesmo que seja espumante, e guarda-se a rolha da garrafa aberta na ocasião para festejar o Ano Novo, em lugar secreto, para que traga dinheiro. Também se acredita que é de bom agouro dar três saltinhos com uma taça de champanhe na mão, de modo a que não verte sequer uma gota; há quem leve o costume mais longe, deitando após o conteúdo do copo para trás, independentemente de molhar alguém, porque garantirá a sorte a essa pessoa. É evidente que não terá semelhante sortudo aquele que for atingido.
CHIFRES. Não é sinal de sorte ter um chifre em casa. No sentido literal do termo, o chifre de boi constitui protecção contra o diabo, mas para afugentar o bruxedo nada melhor que o de veado.
Se o intuito fosse rebaixar este artefacto e a sua conotação com pormenores de outras metáforas, nem sequer abria o verbete.
CHINELOS. Quando são velhos, este adereços podem ainda prestar um último serviço aos seus proprietários. Se forem queimados, e não forem de plástico, parecem constituir um gratificante antídoto contra as bruxas, cuja repulsa, estou em crer, poderá ser causada pelo peculiar cheiro do chamado “sulfato peúgo” durante e após a incineração.
CIGARROS. Não é de bom augúrio acender mais do que um cigarro com o mesmo fósforo, assim como é embaraçoso para uma rapariga pisar um charuto ou uma cigarrilha já fumados, dado que isso acarreta casarem com o primeiro homem que virem depois desse percalço.
Bem, azar azar não é de todo, porque podem cruzar-se repentinamente com o Cristiano Ronaldo ou o Tom Cruise.
CONSULTAS. Cobrança sim, facturas nada. A actividade nunca foi devidamente catalogada e, se o fosse, fazia-se tábua rasa do articulado.
O tarifário das consultas é, como tudo nesta vida, do mais puro secretismo. Por um lado, está a concorrência, por outro o preenchimento dos recibos verdes, se é que existe alguma profissional que os passe.
É comum, nalguns escritórios de especialidades médicas soar o aviso de que com recibo o preço é mais elevado. Ora, no caso das bruxas, bastar-lhes-ia avisar que o receituário e os feitiços, em caso da passagem de recibo, não resultariam.
Que se saiba, uma bruxa de Gaia, de nome Olívia, ostentava à porta do consultório a seguinte tabela: “Consultas a dois escudos. Quem quer, quer, quem não quer, não quer”. E olhem que isto é mesmo verdade!
CORNUCÓPIA. É uma espécie de pastel que, nalgumas pastelarias, se chama caramujo; contudo, a cornucópia é mais retorcida e o recheio é diferente. A que aqui é referida para o caso, é um chifre tradicional da abundância, símbolo da generosidade, boa colheita e com implicações mágicas em vez das gastronómicas. Dizem que o próprio chifre é um símbolo fálico, representante do sagrado masculino, mas eu não vejo como! O interior do chifre simboliza o útero, especialmente quando está cheio e fértil, representando o feminino. Por isso também se lhe chama corno da fartura, de que resulta aquela expressão quando alguém nega a outro o pretendido por este: ficas a chuchar num corno!
CRIANÇAS. Dizem que as bruxas têm particular prazer em chupar o sangue das crianças. Por isso, recomenda-se que antes do baptismo não devem ficar os meninos às escuras, a fim de se evitar que as bruxas os levem para os telhados.
Sobre as crianças há tanto assunto que seria melhor levá-lo a enciclopédia própria, distribuída em fascículos e levada de barato na sacola do Expresso,
CUCOS. Há quem diga que é de bom presságio ter moedas soltas na algibeira quando esta ave canta pela primeira vez em cada ano. Se chocalharem as moedas com a mão, então o sinal é melhor ainda, pois haverá esse ano grande prosperidade financeira. Por causa disto, não me perdoo quando ouvi cantar o cuco na altura em que deixei os últimos cêntimos num parquímetro .
Conta-se que a poupa era mulher do cuco, mas que ela andava amancebada com o mocho. O cuco, enciumado, foi bater no cu do mocho e este, enquanto apanhava, ia dizendo – ui, ui!. O cuco, a cada pancada, dizia – no cu, no cu! A poupa, pelo seu lado, apelava – poucas, poucas! Assim é o canto deles.
É mau sinal para uma pessoa ouvir cantar o cuco enquanto está em jejum.
CUECAS. Pelo menos, na passagem do ano, usar de preferência de cor amarela, porque representa o ouro. Não se recomenda usá-las por cima das calças, principalmente se forem vermelhas ou azuis, cingidas à pele, tão ao gosto dos super-heróis das américas.
CUIDADOS. Quem tem filhos pequenos e ouvir miar no telhado, não queira sequer inquirir se é gato em cio ou vizinhança indisposta. Trate antes de deitar para cima das telhas umas pedrinhas de sal, para que as bruxas (pois são elas que estão a berrar como os felinos) fiquem entretidas a apanhá-las.
Criança não baptizada só deve sair à rua se o seu portador disser bem alto, à saída da porta – “o menino vai à madrinha!”.
Para que uma bruxa não apareça inesperadamente casa adentro, será aconselhável não varrer a casa às avessas (não se fala em aspirá-la), da porta para dentro. Para que as bruxas e feiticeiras não entrem em casa e na família, faz-se o seguinte: uma mistura de aipos, anis, pão de trigo ralado e três pedrinhas de sal, tudo metido numa bolsinha que se prende atrás da porta da entrada.
Fora de casa, evita-se o mau encontro com uma dita bruxa se se levar nos bolsos uma côdea de pão. Não o fazer no bolso onde se guarda o lenço e, à cautela, nunca puxar por este se o pão estiver com ele alojado no mesmo espaço.
CULINÁRIA. Alguns ingredientes da culinária da bruxaria e feitiçaria são comuns àqueles que encontramos nos livros de cozinha do Chefe Silva e no Pantagruel, nas receitas de Henrique Sá Pessoa ou naqueles restaurantes que receberam mais de duas estrelas Michelin. Mas outros não. Estes são próprios da cozinha tradicional do caldeirão, embora este sirva principalmente para preparar as poções que vemos coloridas nos filmes de Disney.
Quem quiser praticar este “requintado” tipo de culinária e beberagens, vai ter de correr todas as lojas “Pingo Doce” e “Lidl” para encontrar chifre de dinossauro ou cauda de dragão, condimentos sem os quais alguns preparados não passam de meros ensopados insalubres.
Não quero dizer que as bruxas não apreciem a boa mesa, umas boas bifanas no pão, um arroz de cabidela ou umas amêijoas à Bulhão Pato, mesmo sem pitada dos seus ingredientes secretos.
É certo que havia um código especial para certas receitas e ingredientes, de que extraí de algures alguns exemplos (a gente está sempre a aprender, mesmo que seja enciclopedista): ao pepino dão o nome de barriga de sapo; a cebola é chamada lágrimas de moça e o azeite olho de sapo; ao açúcar dão o nome de pelos de unicórnio (vou pensar nisto quando tomar a bica); a batata designa-se coração de dragão e o nabo recebe o nome de chifre de rinoceronte, ao passo que tem o nome de beijo de sereia o vulgaríssimo sal de cozinha. E por aí adiante, que isto é uma enciclopédia generalista e não de culinária.
Isto de cozinha não são só ingredientes, mas o modo como se preparam. Por isso, resta-me acrescentar que não é de bom agouro mexer a comida no sentido contrário aos ponteiros do relógio.
Ah, e também não é de bom agouro servir com aqueles faqueiros que os ministros dos Negócios Estrangeiros adquirem pela bagatela de duzentos mil euros.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

ENCICLOPÉDIAS ALEGRES (2) BRUXAS


BABOSA. É a planta que nos chega com o rótulo de aloé vera. Dizem os entendidos no assunto que dá sorte, amor e protecção, afinal os três ingredientes que toda a gente deseja, se olvidar o da pedra filosofal e o acertar todos os números do euromilhões. Possui efeito sobre energias negativas, principalmente inveja e mau olhado.
Uma outra característica menos metafísica é a de ser eficaz contra acidentes domésticos, especialmente na cozinha, protegendo das queimaduras, cortes ou tombos. Para além disso, segundo a química, fortalece o couro cabeludo – não sei até se restitui o cabelo perdido, mas a caspa foge dela como o diabo da Cruz - e em creme vende-se para prevenir rugas e combater as peles flácidas e secas.
Como dizem os entendidos que faz crescer o cabelo com muita rapidez, é muito recomendada pelos barbeiros e cabeleireiros, que vêem na planta um poderoso aliado.
Não confundir com o vocábulo de género contrário, o baboso, de que os espanhóis têm um significado assim explicado: “ hombre que resulta molesto e impertinente cuando intenta agradar a una mujer”.
BARULHO. Fazer chinfrineira com tachos e panelas, tem servido para espantar os malefícios do ano que finda e impedindo que entrem no novo. À falta destes apetrechos (principalmente dos tachos, que estão todos tomados), serve uma discoteca de quizomba ou uma sessão de bateria e guitarra-baixo de uma banda liceal.
BELEZA. Salvo raras excepções, nunca vi a reprodução de uma bruxa com base no modelo de rosto de uma Amanda Seyfried, Nicole Kidman, Angelina Jolie, Avril Lavigne ou Beyoncé, para só citar algumas das que são consideradas, na altura em que faço esta enciclopédia, das vinte mais belas do mundo. Até o circunspecto Goya deu em pintar umas megeras narigudas, pelos no queixo e algumas verrugas pouco cuidadas (a simetria destas, agora em moda, paga-se a peso de ouro nos esteticistas).
Pintar o belo é difícil, mas o feio e deformado está ao alcance de qualquer um. Como exemplo, é a capa que fiz para este trabalho, elaborada em menos de uma hora.
O certo é que todos nós, pelo menos uma vez na vida, teremos dito de alguém esta depreciação de mau gosto: “parece uma bruxa” ou “é feia como uma Bruxa”.
BENZEDEIRA. Torna-se o assunto de conversas de serões e soalheiro – pelo menos, no tempo em que não havia novelas televisivas a todas as horas do dia – saber quem é quem no mundo do bruxedo. As benzedeiras toda a gente as conhece, assim como algumas bruxas que têm blogs, sites, twitter, linkedin e facebook.
As benzedeiras encarregam-se dos tratamentos do mau-olhado que atacam os garotos, talham os “ares”, endireitam espinhelas caídas, cortam sarampos e zagres, varrem malefícios e invejas. Estas mulheres, que também são chamadas “corpo aberto” e “santinhas”, têm como utensílios rudimentares e pataqueiros, facas e tesouras (para talharem os ditos “ares”), águas bentas, ramos de alecrim e azeite puro de oliva (o que vem sendo raro como ingrediente porque a pureza é escassa), beladona, meimendro e mandrágora.
Infelizmente, para comporem os magros réditos da profissão, não se incumbem do preenchimento de declarações de IRS (“benzidas” por outras artes), o que lhes garantiria clientela extra.
Enfim, as benzedeiras não passam de mulheres simples.
BOLSA. Quando o negócio era rentável, havia sempre uma bolsa onde se guardavam os cobres. Hoje já não é bem assim. Segundo os cânones do dinheiro e da finança, a bolsa passou a ser de valores (ou seja, quanto menos valores morais, mais valem), constituindo um mercado que gere acções e outros valores mobiliários.
Visto isto, não faltam às bruxas acções (a maior parte, más, mas também grande parte, boas), pelo que, reunidas em sociedade anónima desde os tempos da Inquisição, constituíram uma bolsa, a BVB (Bolsa de Valores Bruxúlicos) que, por decoro, não emparceira com o NASDAQ, o CAC, o MICEX, o NYSE ou o PSI20. 
Perguntarão muito justamente por que razão não consta a “irmandade” financeira nas 30 maiores cotações do índice Dow Jones Industrial Average ou das famigeradas avaliações do Standard & Poor’s. Há uma razão muito simples: não sendo a actividade devidamente reconhecida pela fiscalidade internacional – constituindo os seus lucros uma espécie de fruto de qualquer paraíso fiscal – os editores do jornal financeiro norte-americano The Wall Street Journal, passam pelas acções da BVB e particularmente sobre este segmento de mercado, como cães por vinha vindimada. 
BOLSOS. Não se deve fazer a passagem de ano com bolsos vazios, mesmo que tenha sido esbulhado pelos mesmos sugadores ao longo do ano e independentemente dos cortes no subsídio de Natal. Lembrem-se que até a mendicidade, neste País, paga imposto e que o mínimo tilintar nos bolsos desperta a curiosidade da Autoridade Tributária e Aduaneira.
BURROS. Para além das vassouras, as bruxas usam os burros como meio de transporte, só que preferem montar ao contrário, com as costas viradas para a cabeça do animal. Deverão ter a mesma sensação que se desfruta quando se viaja de comboio na última composição e se vê a paisagem a afastar-se.
Quando alguém passa descalço por um sítio onde um burro se tenha espojado, deve cuspir para que as bruxas não o incomodem.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

ENCICLOPÉDIAS ALEGRES

ABELHARUS. Feitiço inventado pela ficcionista de Harry Potter, faz com que de uma varinha mágica ou enfeitiçadora saia um enxame de abelhas, as quais podem até atacar o feiticeiro, pelo que na dita escola de Hogwarts é ensinado aos alunos do 4º ano o “modus operandi” da coisa.
É claro que o poder se encontra na varinha de carvalho, capaz de fazer com que o dito enxame se transforme em creme, prontinho a ser vendido com a astúcia do vendedor da banha da cobra; ou, para ser mais preciso, transformá-las em mel, vendidas com o rótulo “abelharus”, o puro mel de carvalho.
ABONO DE FAMÍLIA. Forma de assistência que é enquadrada no esquema de segurança social, a que as bruxas não têm acesso (pelo menos, com o cartão profissional que seria suposto terem, para além do número de contribuinte, a que ninguém escapa). Também não precisam, porque o Diabo é a sua Segurança Social. Enfim, tal como ao comum dos portugueses, às vezes até parece que a Segurança Social é o diabo.
ABRACADABRA. É uma palavra de origem cabalística formada por letras dispostas em pirâmide de seis linhas.
Com este título há uma comédia que passou ao cinema dirigida por Kenny Ortega. Narra a história de 3 bruxas que têm a (in)felicidade de serem transportadas até ao séc. XX, tendo de enfrentar três crianças e um gato palrador, que são o cabo do trabalhos.
ACTORES. Os actores não gostam de interpretar a peça de Shakespeare, MacBeth, porque nela se canta uma “canção das Bruxas”, o que atrai o mal e o azar.
Já é longa a tradição em Montalegre, distrito de Vila Real, festejar o dia aziago das «Sextas-feiras 13». Para a celebrar a tradição representa-se uma peça de teatro, em que os actores que encarnam bruxas, duendes e demónios, que vão assombrar a vila, são idosos e crianças do concelho, enquanto a assistência popular fica suspensa do acto como pernas de presunto na cura.
ACTUAÇÃO. As bruxas costumam entrar pelos buracos das fechaduras das portas ou pelos buracos nos telhados. Quando entram nas adegas, utilizando o tal método da fechadura, bebem o vinho. Tocam pandeireta quando dançam, cantam desafinadas como um coro de ébrios, soltam sonoras gargalhadas e dançam à roda, de mãos dadas.
Quando pretendem embruxar alguém, apanham a terra da pegada do pé direito que essa pessoa deixou, atam-na a um pano e atiram-na à cova de um defunto. Assistir a tudo isto não é lá muito divertido.
ADIVINHAÇÃO. Segundo a conceituadíssima Wikipédia, o termo engloba tudo menos os números do euromilhões, o que significa “profecia, previsão, intuição, palpite, pressentimento”, pois é “o acto ou esforço de predizer coisas distantes no tempo e no espaço, especialmente o resultado incerto das actividades humanas”.
A adivinhação não deixa de ser uma arte, neste caso mágica, de descobrir o desconhecido através da interpretação de símbolos, como é a “leitura” de nuvens, cartas de tarô, chamas e fumo, ossos de animais e cartazes de autarcas municipais.
Quer isto dizer que as bruxas adivinham? É claro que adivinham, pois têm a equivalência aos cursos técnicos profissionais e profissionalizantes de astrologia, cartomancia, quiromancia, taromancia, hepatoscopia, I Ching e numerologia, para só citar estes. Parece que elas possuem, em doses maciças, os poderes sibilinos de Nostradamus, de Bandarra, mesmo do Pretinho do Japão, e das previsões económicas do Banco de Portugal.
Numa sondagem que se realize, como é hábito, através de entrevistas telefónicas em escolha aleatória, dará 10 por cento para os que acreditam no acertar dos resultados de adivinhação das bruxas e outros 10 por cento para quem creia no inverso. É bom que se diga que a diferença estará para quem não sabe/nem responde ao inquérito, que por meu lado adivinho com um erro máximo de amostra de 0,6 por cento para um grau de probabilidade de 99,9 por cento.
AFOGAMENTO. O teste do afogamento era praticado por débeis mentais sobre aquelas ou aqueles que eram julgados com poderes de bruxaria ou feitiçaria. Deitavam a vítima num rio: se morresse afogada, não era bruxa, mas lá se foi para o outro mundo; se se salvasse, então era bruxa e passava também para o outro mundo, queimada viva.
Melhor método, e menos poluente, seria lançar a bruxa sobre um insuflável e provar, com ou sem ressalto, o sim e o não da resposta.
ÁGUA. Não parece que as bruxas tenham medo da água, mas não será decerto a sua preferência quando se trate de higiene. Provavelmente elas terão completado aquele rifão popular que diz que a água não faz mal a ninguém, desde que não sirva para lavagem de bruxa, não se afoguem nela nem a bebam.
Diz-se que tanto o senhor Diabo como as senhoras bruxas não gostam da água a ferver; daí poderá dizer-se que bruxa escaldada da água fria tem medo.
ALFINETES. Tradicionalmente utilizados na Bruxaria para atar feitiços, colocar ou transferir um desejo em uma representação simbólica de alguém, de um lugar ou de uma situação, designadamente para “picar” alguém à distância, com objectos chamados de “vodu”.
Os mais usados são os alfinetes de cabeças coloridas, pois cada cor representa um pedido particular, como é disso exemplo a cor vermelha para a paixão ou a verde para a cura.
ALHO. Para quem queira afugentar as bruxas, nada melhor do que trazer um rosário de cabeças de alho ao pescoço. O mesmo efeito se concretiza ao mastigar-se um dente de alho.
Ressalva-se, porém, o odor do dito, que terá o condão de não afastar apenas as bruxas.
ALIMENTOS. Embora este mesmo assunto seja abordado na entrada “Culinária”, para abrir o apetite não me privo de o cozinhar aqui.
Demonologistas, inquisidores e alguns enciclopedistas, queimaram as meninges para descobrirem o que comiam as bruxas fora da vista desarmada. Quando elas confessavam práticas e comeres aberrantes, isso era a maior parte das vezes devido à tortura dos inquisidores, ávidos para obter confissões terríveis e assim lhes facilitar a redacção das sentenças. Dizer que elas tinham por gastronomia qualquer mistela parecida com o menu de um cafre, é pura especulação.
Serpentes, sapos, gafanhotos e até morcegos, não são de todo ingredientes, que eu acredite; mais certo, bons nacos de presunto e toucinho, vaca e carneiro assados, tudo regado com vinho do melhor, mesmo que surripiado nas adegas da vizinhança.
Outros estudiosos, aventam que eram em tempos vegetarianas, alimentação com ausência de carne, como era hábito em alguns costumes pagãos.
Terão então as bruxas apetência pela soja, tofu, algas, castanhas e folhas de alface?
Esta teoria não pega, pois há quem jure ter visto uma bruxa a passar ao estreito, num restaurante da especialidade, uma garoupa, duas cavalas, uma embalagem de delícias do mar ainda congeladas e um pires de “jaquinzinhos” sem arrotar.
Nas assembleias, o bode e as bruxas não se privam do estendal no final da sessão, onde não faltam os garrafões de vinho e presunto, nem tão pouco o sacramental cafezinho servido do termo e um cálice de aguardente, da rija, uma vez que não há brigadas de trânsito por onde circulam as vassouras.
ALTERNATIVA. Tal como acontece na tauromaquia, em que o toureiro, bandarilheiro ou cavaleiro, são investidos nas respectivas categorias, as bruxas também recebem a sua investidura; não em estoques, bandarilhas ou farpas, mas porventura em varinhas, alhos porros ou vassouras voadoras, à moda antiga.
Cabe ao diabo, arrogante e paternalista como é, a espadeirada que outorga o diploma à neófita em final de curso. Nessa gala, que fará lembrar a investidura de irmãos em capítulo de confraria, o fulgor da cerimónia acaba em agonia moral, abrindo-se entre o bode e as fêmeas as núpcias de uma bacanal, das fortes.
ANIMAIS. Um certo homem encontrou uma mulher montada num burro ao contrário e com muitas galinhas à volta, que logo se transformaram em duas lindas mulheres; mal ele se benzeu com a admiração, tudo desapareceu.
Por vezes, as bruxas aparecem nas encruzilhadas com a forma de uma porca que se faz acompanhar de leitões de cor escura. O efeito para um mortal num encontro imediato de grau xis como aquele, não consta sequer do manual de instruções.
ANTÍDOTOS. Parece mentira, mas um rosário de alhos parece ser eficaz como antídoto contra os malefícios da bruxaria. Também se julga com idêntico êxito um ramo de alecrim e arruda, uma tesoura aberta, um chinelo velho ou uma meia calçada do avesso. Quem quiser complicar a receita, poderá juntar num saquinho algumas pitadas de rudo macho, espargo, mirra e mostarda. Simplificará se o conteúdo passar apenas com umas pedras de sal.
Com toda a humildade, não asseguro a eficácia. Uma ferradura atrás da porta, na grelha do automóvel ou na barra cama, parece ser o antídoto indicado para afugentar o bruxedo e quem o pratica, mas poderá fazer-se uma figa com os dedos indicador e médio à falta de um adereço mais apreciável, que é o signo-saimão (signo-salomão). Deixo um aviso, caso queiram servir-se dos dedos da mão: nada de esticar o médio e encolher ao mesmo tempo o indicador e o anelar.
Não encontrei qualquer referência alusiva à eficácia se a sogra estiver por perto. A sogra ou um fiscal das finanças, bem entendido.
     ARRUDA. Mais conhecida é a Arruda dos Vinhos, vila portuguesa do distrito de Lisboa. Porém, como este trabalho não é de âmbito corográfico, a arruda que aqui se traz é considerada das ervas mais poderosas para combater inveja e olho-gordo. A superstição receita: um galho de arruda junto ao corpo ou na cozinha, calha para reter as energias negativas. As folhas secas servem para preparar um chá bem forte e com ele lavar o chão da cozinha, pelo menos uma vez por semana, para proteger a cozinha, a casa e deixar o chão lavado, do género lava-tudo, que sai na publicidade como lava e encera, ainda com o benefício das fragrâncias não alergénicas, sem fosfonatos e formaldeídos.