sábado, 8 de agosto de 2015

ENCICLOPÉDIA DAS BRUXAS (II)

Dando continuidade à exposição de algumas entradas da enciclopédia anunciada em publicação anterior, eis mais algumas, escolhidas ao acaso.
ALIMENTOS. Embora este mesmo assunto seja abordado na entrada “Culinária”, para abrir o apetite não me privo de o cozinhar aqui.
Demonologistas, inquisidores e alguns enciclopedistas, queimaram as meninges para descobrirem o que comiam as bruxas fora da vista desarmada. Quando elas confessavam práticas e comeres aberrantes, isso era a maior parte das vezes devido à tortura dos inquisidores, ávidos para obter confissões terríveis e assim lhes facilitar a redacção das sentenças. Dizer que elas tinham por gastronomia qualquer mistela parecida com o menu de um cafre, é pura especulação.
Serpentes, sapos, gafanhotos e até morcegos, não são de todo ingredientes, que eu acredite; mais certo, bons nacos de presunto e toucinho, vaca e carneiro assados, tudo regado com vinho do melhor, mesmo que surripiado nas adegas da vizinhança.
Outros estudiosos, aventam que eram em tempos vegetarianas, alimentação com ausência de carne, como era hábito em alguns costumes pagãos.
Terão então as bruxas apetência pela soja, tofu, algas, castanhas e folhas de alface?
Esta teoria não pega, pois há quem jure ter visto uma bruxa a passar ao estreito, num restaurante da especialidade, uma garoupa, duas cavalas, uma embalagem de delícias do mar ainda congeladas e um pires de “jaquinzinhos” sem arrotar.

Nas assembleias, o bode e as bruxas não se privam do estendal no final da sessão, onde não faltam os garrafões de vinho e presunto, nem tão pouco o sacramental cafezinho servido do termo e um cálice de aguardente, da rija, uma vez que não há brigadas de trânsito por onde circulam as vassouras.
CAÇA ÀS BRUXAS. Quando se fala em caça às bruxas sem se referir a políticos e à política, alude-se à ignominiosa perseguição religiosa e social que começou no final da Idade Média e atingiu o seu apogeu na Idade Moderna, por se achar que as bruxas eram tidas como satânicas. Naquela paranóia instituída, queimavam então as pobres mulheres em fogueiras para as castigar e “purificar”.
A caça às bruxas, tal como outros tipos de caça com o seu “Manual do Bom Caçador” ou “O Manual do Caçador Furtivo”, possuía também um livro de instruções do género faça você mesmo, se puder. Tem por título Malleus Maleficarum, ou "Martelo das Feiticeiras", publicado em 1486, originalmente escrita em latim pelos monges dominicanos Kramer e Sprenger. 
Nesta obra, os capítulos estão recheados de assuntos e questões como estas: se os íncubos e os súcubos podem conceber crianças; se as bruxas copulam com demónios; se as bruxas que são parteiras matam de diferentes maneiras as crianças concebidas no útero, e tentam um aborto, ou se não fazem isso, oferecem aos demónios os recém-nascidos, entre outros assuntos de semelhante jaez.
Se em vez daquela trapalhada, os fradinhos rotundos, ardilosos e implacáveis, tivessem escrito uma enciclopédia alegre ter-se-ia poupado muitas vidas e, com a legalidade da profissão, muita receita fiscal entraria nos cofres do erário público. Já não conto que me poupariam muito trabalho, pois para fazer esta edição bastar-me-ia chegar à net, copiar e colar.
O primor desta obra “ Martelo das Feiticeiras” teve direito a bula de Inocêncio VIII, “bispo, servo dos servos de Deus, para eterna memória”.
Se não queimaram aquela tralha toda, ainda restam por aí alguns exemplares, mormente traduzidos e dispostos para downloads na internet.
CASAMENTO. Agora é que são elas! Sobre o casamento há tantas superstições que, se fossem levadas a legislação, havia por lá mais artigos do que no Código Civil (e este leva qualquer coisa acima dos dois mil e trezentos). Por isso, estão a ver, pela rama é que eu vou passar este verbete, uma vez que não pretendo uma enciclopédia alegre de solteiros, casados e divorciados.
Vejamos, só para mata-bicho.
Quer casar em Maio? Marcou a boda para um sábado, principalmente se neste dia decorre o aniversário de um dos noivos? Não o faça. Prefira casar a uma quarta-feira, pois é a superstição que o recomenda e o melhor mês é Junho, por ser dedicado a Juno, fiel esposa de Júpiter. Outro conselho: deve ser o noivo a fechar a porta do quarto na noite de núpcias.
Victor Hugo chegou a afirmar que o casamento é um romance no qual o herói morre no primeiro capítulo.
Começando do princípio, diz a crença que não se deve varrer os sapatos e os pés dos jovens solteiros, pois é sinal de que não casarão e que, se uma pessoa solteira ouvir uma vaca berrar, deve meter uma das mãos na algibeira, para assim vir a casar cedo.
Acertado o casório, pois o namoro não deve ser prolongado como o do Sapo Cocas e da Miss Piggy, a escolha do vestido é também importante, segundo a crença. Para já, deve ser de seda, porquanto o cetim é considerado aziago, enquanto o veludo pressagia pobreza. O véu foi criado para evitar que os espíritos malignos cobicem a noiva. Se não sabiam esta, ficam a saber.
O cortejo nupcial deve seguir para a igreja por uma rua e regressar por outra, porque é de mau agoiro ir e vir pela mesma. Evitem cruzar-se com um porco ou com um funeral, mas acreditem que será benéfico aparecer um gato preto ou um limpa-chaminés.
No Minho, em recuados tempos, os noivos seguiam para a cerimónia em carros de bois enfeitados com campainhas. Naquela espécie de limousine, o noivo devia ter o cuidado de ir para a igreja com as pernas para fora e voltar da cerimónia com elas para dentro, como um paxá.
Perguntará algum leitor, com pertinência: então, onde atavam os amigos a tralha da lataria no veículo nupcial, que dizem dar felicidade? No carro de bois, não, porque a coisa andava tão devagar como se estivesse numa película de Manoel de Oliveira; depois, com tal chinfrineira de rodados, mal se dava pela chocalheira das latas. Pois bem, para solucionar essa questão, atirava-se literalmente um sapato ao noivo, que o devia apanhar para o colocar aos pés da cama, como símbolo de autoridade.
A primeira fatia do bolo de casamento deve ser cortada, em conjunto, pelos noivos, sob pena de não haver descendência se só um deles o fizer. O corte da fatia por ambos simboliza a partilha de tudo entre si.
Para terminar o arrazoado, mais alguns dos avisos da senhora superstição.
Se alguém, por distracção, calçar uma bota e um sapato, é sinal de que se desmanchará um casamento na família. Pior do que isto é saber-se que a crendice larga enfaticamente que o primeiro recém-casado a subir para a cama na noite de núpcias é o que primeiro morrerá, havendo idêntico desfecho para aquele que apagar a luz do quarto. Temo que as superstições deste jaez, desta feita e através destas perplexidades, façam com que na noite de núpcias ambos se estendam no chão do quarto e de luz acesa.
Enfim, com tantas recomendações, especialmente as que omiti aqui, é caso para considerar as palavras dos mal-intencionados que dizem chamar-se santo ao casamento porque conta com inúmeros mártires.
 IMPOSTOS. Se já não escrevi isto atrás, é porque vai ser escrito adiante ou, para não reler o escrito, deve ter sido referido antes e depois desta entrada que fala dos impostos e a sua relação com as bruxas.
Escusado será dizer que na Idade Médio, a alta e a baixa, bem como nos períodos que se seguiram, mormente com a Inquisição, as bruxas pagavam os impostos após a morte: todos os seus bens eram confiscados. E os herdeiros, mesmo assim, ainda pagariam a “lutuosa” ao senhorio ou ao rei, imposto que se calculava segundo os bens do defunto.
No entanto, tenho de dizer que as bruxas não tinham impostos especiais pela actividade, que era naturalmente considerada prática criminosa e contrária aos ensinamentos religiosos. O único imposto que indirectamente estariam sujeitas era a “baluga”, curioso tributo fixado generalizadamente em três arráteis e meio de cera ou quatro soldos, pela alcavala com o nome de “ossas”, se enviuvassem e pretendessem casar de novo. Emendo: havia um outro que certamente lhes cobrariam, que era a “talha”, pois deste imposto ninguém se livrava… E era cada talhada! Tratava-se de uma contribuição extraordinária – como há hoje tantas para acorrer aos mesmos efeitos – cobrada aos que tinham, aos que não tinham e aos que fingiam não ter, para suprir falhas do erário régio quando qualquer acontecimento originava falha de dinheiro superior às necessidades.
As bruxas de hoje, livres da infeliz cobrança “post mortem”, não se livram do leque de tributos do espectro fiscal. Basta lembrar que um simples instrumento de trabalho, como a bolinha de cristal, vem facturada com vinte e três por cento de IVA. E, mesmo que a sua actividade fosse enquadrada no regime ilícito, lá está o código do IRS que, logo no articulado a abrir engloba todos os rendimentos, “mesmo quando provenientes de actos ilícitos”.
LIVROS. Para além do Manual das Bruxas, que deve ter uma edição limitada, há outras obras escritas por atrevidos que não pescam nada do assunto (como é o meu caso) e que parágrafo sim parágrafo não metem os pés pelas mãos, limitando-se a copiar e colar o que vão espreitando pelas ligações do Google.
Bruxa que se preze deve possuir o Grande Livro de São Cipriano, bem como o Primo Basílio, a maior parte – se não toda – a obra de José Rodrigues dos Santos e a colecção dos anuários de estatística do INE.
As bruxas, no entanto, têm um “livro das sombras” que elas próprias escrevem à mão (hoje devem fazê-lo no mais recente Microsoft Word) como se fosse um diário. Este livro tem a particularidade de não sobreviver ao autor, ao contrário das obras premiadas com o Nobel da Literatura. Este livro deve ser queimado logo após o último suspiro da bruxa.
Querer pretender adquirir livros de bruxaria e feitiçaria à moda antiga pela internet, é como tentar encontrar online um catálogo de zarabatanas de paxiúba do Amazonas (não confundir com os livros vendidos na Amazon, embora haja por lá obras mais eficazes que as zarabatanas do rio Içana).
VASSOURAS. É um meio de locomoção por excelência para a arte bruxática (devo ter criado um termo novo), tão importante para a classe como o automóvel é hoje para a distribuição do correio porta a porta pelos CTT. Trata-se de um transporte rápido, silencioso, económico, eficaz e não poluente, com a imensurável vantagem de não estar pendente dos constantes aumentos do preço dos combustíveis e das irritantes filas nas bombas de abastecimento. Tem ainda a particularidade de todas as funções de um voo doméstico e das viagens “low-cost”, sem as habituais chatices do apertar do cinto (coisa que os portugueses fazem constantemente desde que se levantam da cama), do não fumar e da praga das assistentes de bordo. Como se trata de um monolugar, tem a vantagem de se incluir no espírito “motard”, sem capacete, longe das expectativas causadas pela obediência aos semáforos, aos sinais de stop e ao sopro no balão para controlo de álcool. Mais ainda, sem o pagamento do imposto único de circulação (cujo nome é um eufemismo, porque este não é o único imposto para quem circula), e sem a obrigatoriedade dos coletes reflectores, dos triângulos de sinalização e do seguro em dia.

A vassoura, para além destas prerrogativas retro apontadas, tem porém inconvenientes. Se não pertencer à bruxa, basta virá-la ao contrário e colocá-la atrás de uma porta, o que a impede de sair desse sítio.
VIRGINDADE. Encontrava-me na elaboração deste arremedo tosco de enciclopédia quando li uma notícia na qual se dizia que uma jovem chinesa anunciara nas redes socias que trocava a sua virgindade pelo prazer de ter um iPhone4 novinho em folha. Dizia mais: e que fazia isso com qualquer um que se dispusesse à troca.
Há uns anos atrás, um “drama” deste género era passado a verso e cantado nas feiras com folhetos a tostão.
Eu ia escrever uma obscenidade, mas lembrei-me que esta enciclopédia é livro de respeito, para ser lido por qualquer idade e em qualquer lado, desde as salas de leitura da Biblioteca Nacional até à paragem do eléctrico 28, se algum carteirista não se antecipou e “gamou” esta proveitosa obra.
Devo ter escrito noutro lado sobre uma das superstições que pendem sobre a virgindade ou a perda dela, que é o costume, em aldeias de Portugal, considerar que o estrondo dos foguetes, no dia do casamento, tirava a virgindade às noivas. Cá para mim, este seria um pretexto para ludibriar o tanso do noivo, pois um parente vivaço era capaz de fazer estralejar meia dúzia de foguetes de cana e um morteiro para salvar a honra da dita.
Há outras superstições mais arriscadas para servir a prova da virgindade, como fazer passar a donzela por um enxame de abelhas sem ser picada.

Como ponto máximo da superstição, está a crença de que a mulher que dá à luz sete filhos de outros tantos pais readquire a virgindade. Esta, até eu não acredito, salvo se o sétimo “pai” assegurar, sob compromisso de honra, que o virgo está intacto e flexível.

P.S. Como podem ler, hoje estou um "mãos largas", dando sete dos cento e tal entradas (quase duzentas) incluídos na obra referida, que estará à venda após uma noite de lua cheia, se não sair embruxada à semelhança dos cartazes eleitorais do PS (Post Scriptum, seja bem entendido).

terça-feira, 4 de agosto de 2015

ENCICLOPÉDIA DAS BRUXAS

Quem ler o post anterior, ficará com a ideia que esta capa é do segundo volume da enciclopédia dita - errado; poderá dizer que eu alterei a montagem - certo.
Estou numa fase frenética. Ora desenho (BD), ora digito texto com apenas os dedos indicadores das duas mãos, ainda investigação vária, comer e dormir, com outras propostas de permeio.
Hoje trago aqui, para além da nova capa (projecto), quatro entradas extraídas da obra supra, escolhidas ao acaso. Não reparem nos pormenores de pontuação, pois a revisão é a última (e custosa) coisa que faço.
ADIVINHAÇÃO. Segundo a conceituadíssima Wikipédia, o termo engloba tudo menos os números do euromilhões, o que significa “profecia, previsão, intuição, palpite, pressentimento”, pois é “o acto ou esforço de predizer coisas distantes no tempo e no espaço, especialmente o resultado incerto das actividades humanas”.
A adivinhação não deixa de ser uma arte, neste caso mágica, de descobrir o desconhecido através da interpretação de símbolos, como é a “leitura” de nuvens, cartas de tarô, chamas e fumo, ossos de animais e cartazes de autarcas municipais.
Quer isto dizer que as bruxas adivinham? É claro que adivinham, pois têm a equivalência aos cursos técnicos profissionais e profissionalizantes de astrologia, cartomancia, quiromancia, taromancia, hepatoscopia, I Ching e numerologia, para só citar estes. Parece que elas possuem, em doses maciças, os poderes sibilinos de Nostradamus, de Bandarra, mesmo do Pretinho do Japão, e das previsões económicas do Banco de Portugal.
Numa sondagem que se realize, como é hábito, através de entrevistas telefónicas em escolha aleatória, dará 10 por cento para os que acreditam no acertar dos resultados de adivinhação das bruxas e outros 10 por cento para quem creia no inverso. É bom que se diga que a diferença estará para quem não sabe/nem responde ao inquérito, que por meu lado adivinho com um erro máximo de amostra de 0,6 por cento para um grau de probabilidade de 99,9 por cento.
ANTÍDOTOS. Parece mentira, mas um rosário de alhos parece ser eficaz como antídoto contra os malefícios da bruxaria. Também se julga com idêntico êxito um ramo de alecrim e arruda, uma tesoura aberta, um chinelo velho ou uma meia calçada do avesso. Quem quiser complicar a receita, poderá juntar num saquinho algumas pitadas de rudo macho, espargo, mirra e mostarda. Simplificará se o conteúdo passar apenas com umas pedras de sal.
Com toda a humildade, não asseguro a eficácia. Uma ferradura atrás da porta, na grelha do automóvel ou na barra cama, parece ser o antídoto indicado para afugentar o bruxedo e quem o pratica, mas poderá fazer-se uma figa com os dedos indicador e médio à falta de um adereço mais apreciável, que é o signo-saimão (signo-salomão). Deixo um aviso, caso queiram servir-se dos dedos da mão: nada de esticar o médio e encolher ao mesmo tempo o indicador e o anelar.
Não encontrei qualquer referência alusiva à eficácia se a sogra estiver por perto. A sogra ou um fiscal das finanças, bem entendido.
CALDEIRÃO. Um dos símbolos da actividade, geralmente com água a ferver, onde se juntam alguns corantes para dar efeito, bem como ervas e fauna rasteira vária, tais como asas de morcego, rabo de escorpião e sémen de unicórnio. No entanto, trata-se de um instrumento mágico tão importante como é o estetoscópio médico para um clínico que mostre estar em serviço. Representa o ventre da deusa e o útero feminino. O seu tamanho deve ser um pouco menor que uma das panelas do restaurante El Celler de Can Roca.
Decerto não confundir este caldeirão com o da lenda que atribuiu o seu enchimento de ouro através do arco-íris, porque se fosse real já teria na periferia os auditores da Goldman Sachs, os mercados bolsistas e outras organizações sem fins lucrativos.
IDENTIFICAÇÃO. Apesar de a Inquisição ter dado baixa da actividade há muito tempo, o certo é que as bruxas continuam a viver numa quase clandestinidade. Para as reconhecer, caso alguma delas entre na casa de alguém – e a dona ou o dono da casa quiserem ter a certeza de que a visita pertence à estirpe - deverá esconder uma vassoura atrás da porta, virada ao contrário. A bruxa não conseguirá sair.
O mesmo efeito parece obter a pataqueira versão de um banco virado de pernas para o ar.
Com a mesma eficácia, uma navalha espetada na sombra da bruxa, fará com que esta fique tão imóvel como a estátua do Marquês de Pombal na sua rotunda.
Em tempos idos, para se determinar se uma mulher era ou não bruxa, atava-se de pés e mãos e deitava-se num lago de águas fundas: se mergulhasse, era bruxa; se flutuasse, não era. É claro que nem me vou dar ao despropósito de insultar a inteligência dos leitores ao dizer para que lado pendia a percentagem do sim e do não.
Quando virem uma amazona montada ao contrário… pimba! É bruxa. E se encontrarem numa encruzilhada uma porca com leitões de cor escura, aí vai uma bruxa disfarçada. Convém, neste caso, não a confundir com a “porca” da política, reconhecida já pelo extinto Rafael Bordalo Pinheiro e disfarçada com outros adereços mais subtis, designadamente os leitões que a seguem, sempre ávidos da teta e malas Louis Vitton.
Na heráldica, nada se encontra sobre bruxas. Nada mesmo. Se houvesse, talvez estivesse assim esculpido em brasão: escudo lavrado em campo de preto e esquartelado de caveiras com a dentição completa, sapos ou outros motivos atinentes, tudo em campo polvilhado com pós de perlimpimpim. Em chefe, uma vassoura ou uma varinha mágica (sem ser das de passar o cozinhado), consoante a casta.
De qualquer forma, sem menção do registo da actividade, não consta que a profissão das ditas possa vir a constar no Código das Actividades Económicas ou na lista das profissões liberais anexa ao código do IRS. Logo, sem cartão profissional, sem descontos para a Caixa de Previdência, sem impostos retidos na fonte e outras alcavalas que levariam mais de cinquenta por cento dos seus rendimentos mensais. Poderão descontar por outros “hobbies” que tenham em concomitância, como será alguma colocação em organismo público ou privado.
Como é de direito, será certo que terão bilhete de identidade ou cartão de cidadão, cartão de crédito, cartão do “Continente” e número de contribuinte. Mas isso toda a gente tem!

sábado, 1 de agosto de 2015

ENCICLOPÉDIA ALEGRE DE BRUXAS E SUPERSTIÇÕES

Em 31 de Outubro de 2011, deixei uma publicação neste mesmo blogue que dizia (e prometia):
"Vou neste blogue periodicamente publicar, por ordem alfabética (naturalmente), uma Enciclopédia Alegre de Bruxas e Feiticeiras. Publiquei parte deste trabalho na revista NOTÍCIAS MAGAZINE, do Diário de Notícias, Jornal de Notícias e Notícias da Madeira, no nº 440, de 29 de Outubro de 2000".
Para os que eventualmente se mostraram mais interessados, repararam que eu não cumpri o prometido, o que vou fazer, não no blogue no seu todo, mas em partes, uma vez que vou publicar um livrinho sobre o assunto, cujo título serve de epígrafe a esta peça.



O livrinho irá ser impresso através do sistema "print on demand", pelo que a tiragem se presume, à partida, muito limitada. É a primeira vez que o pretendo fazer através deste sistema editorial, ainda como auto-edição, e colocado à venda e em oferta para um número restrito de pessoas, designadamente através deste blogue. É, assim, a quinta edição (para já) deste ano de 2015, o que levou a APEL a recomendar-me a requisição de um conjunto maior de prefixos de ISBN.
Quem sabe se não irei, posteriormente, a "fabricar" outras enciclopédias alegres sobre assuntos como política, economia, gastronomia e o diabo a quatro.
Para ilustrar esta peça (não gosto de escrever post), deixo a primeira e última página do trabalho que foi publicado na revista citada acima.
Depois de dar entrada desta peça no blogue, fui fazer o projecto de ilustração da capa. Vai a seguir.



segunda-feira, 27 de julho de 2015

O MANUAL E O DIGITAL

Para além de aceitar desafios, como foi o caso da RTP, em que apostei desenhar em directo e ao vivo uma prancha de Lucky Luke, tendo esse desafio decorrido com uma mancha de 3 metros de altura com a largura proporcionada (quando a mancha do álbum tem 25 cm de altura), também os proponho a mim próprio, como é o caso de desenhar com o rato no computador.
Desenhar com o rato não é fácil e só ao poder de muitas horas e de muita experiência se consegue transformar em "bico de lápis" aquela "carapaça de escaravelho". Por isso, faço-o no acabamento das vinhetas, acrescentando ou corrigindo imperfeições, linhas dos enquadramentos e textos, depois de ter passado pelo scanner o trabalho manual, a tinta (com as linhas principais do desenho).


Isto quer dizer que as pranchas que actualmente produzo não são propriamente consideradas as ideais para exposições de BD, a não ser que o trabalho final seja apresentado como original, depois de impresso. Mas, sinceramente, ao contrário do que vai sendo usual no panorama bedéfilo nacional, em que se expõe mais do que se publica, não estou interessado nesse propósito, tanto quanto é essencial o produto final, o livro ou álbum, e acessória a exposição em galerias.



Se se reparar nas janelas desta vinheta ou no cadeirão à esquerda, nota-se que há trabalho digital.


sábado, 25 de julho de 2015

A "BATALHA DE TRANCOSO" E O JORNAL "EXPRESSO"


Foi há 30 anos. O álbum de BD "Batalha de Trancoso" constitui o meu primeiro trabalho publicado nesse formato. Mas tem uma história interessante...
Em meados de 1984, o então vice-presidente da Câmara de Trancoso abordou-me em outro concelho onde eu trabalhava para me propor a BD sobre a batalha de S. Marcos, pois ia comemorar-se o 6º centenário em 1985 (a batalha deu-se a 29 de Maio de 1385, mas na altura ainda se comemorava a 25 de Abril).
Depois de entregue o trabalho, foi-me proposto pela Câmara que estava interessada em adquirir os direitos, fazendo um preço que eu achei justo. O álbum saiu, foram feitas edições atrás de edições e eu... chapéu!
Passados uns anos, aquando nas pesquisas das actas do município para uma obra monográfica de uma das freguesias do concelho de Trancoso, reparei que o jornal "Expresso" estava interessado na edição da obra.
Assim, na acta de 23 de Maio de 1985 lê-se: "Em seguida foi presente ofício recebido do jornal Expresso informando que estudou a possibilidade de fazer publicar nas suas páginas a banda desenhada editada por esta Câmara referente às Comemorações da Batalha de Trancoso, pedindo para a Câmara colaborar com apoio publicitário".
Não me foi dado conhecimento, mas nessa acta o executivo deliberou solicitar mais pormenores ao semanário. 
O assunto só foi a reunião a 5 de Setembro de 1985, pois lê-se: "Em seguida foi presente a carta da empresa Sojornal - Soc. Jorn. SAR, proprietária do Jornal Expresso, apresentando a sua disponibilidade para publicar  "A Batalha de Trancoso" em banda desenhada por reprodução directa do álbum editado por esta Câmara, oferecendo gratuitamente 500 exemplares a este Município. A Câmara deliberou autorizar  a publicação de tal trabalho nas aludidas condições, sem qualquer encargo para si, mantendo a exclusiva propriedade e direitos de autor sobre a referida obra".
Todo o processo passou-me à margem, pois eu já nada tinha a ver com o caso. O que vendi, está vendido.
Sobre este trabalho, uma revista publicada pelo Expresso (com a Liber), - o Jornal da BD, 165, 21º volume, 5º fascículo - dedicou-me uma breve crítica, assinada pelo Geraldes Lino, na página "da BanDa de cá"que passo a reproduzir: "Apresentada em álbum de Banda Desenhada pela Câmara Municipal de Trancoso, pode considerar-se acontecimento quase inédito, a par de "A Batalha da Salga", editada em 1981 pela C.M. de Angra do Heroísmo./ Desta Batalha de Trancoso (ou melhor, de S. Marcos), comemorou-se este ano o Sexto Centenário. Daí resultou a ideia de a narrar, bem como aos antecedentes históricos, através da BD. Tomou conta do recado Fernando Jorge dos Santos Costa cujo grafismo, apesar de evidentes incipiências, tem o indefinível encanto da espontaneidade."
Resta-me acrescentar que o então vice-presidente passou a presidente da Câmara no mandato seguinte e foi-o até ao limite de mandatos legal, tendo eu sempre colaborado com outras publicações, mas sem a venda dos direitos de autor.
Ainda hoje recordo que, em 1984, na ocasião em que fui chamado à reunião do executivo, para assinar o contrato, um dos vereadores, médico de profissão (e de quem sou amigo), me foi chamar à sala de espera e convidou desta guisa: - "Entre, a Banda!".

terça-feira, 21 de julho de 2015

UMA VINHETA, VÁRIAS PERSPECTIVAS





É a mesma vinheta, o autor continuo a ser eu, os tratamentos é que são diferentes, designadamente na aplicação da cor e, no caso da última, com uma trama ou "screentone", que lhe dá os cinzentos.
Trabalhar em BD não é fácil. Por vezes, o mesmo trabalho percorre várias versões, quase sempre com imperceptíveis alterações do traço, designadamente quando é redesenhado a partir do original.
É natural que esta cena, depois de escrita e bem esticada (com a descrição das personagens, a acção à mesa, a iluminação, a comida e os diálogos, por exemplo), caberia na mancha de uma página de livro, mas demoraria menos vinte vezes a ser executada em termos de energia e de tempo.
Alterarei o rifão para dizer que "uma imagem vale por mil palavras e necessita do tempo inerente a estas para se executar".

segunda-feira, 20 de julho de 2015

OS "MALTRATADOS" E AS "CRÓNICAS"




Poderá alguém dizer - e ainda não disse, mas talvez pensasse - que este blog é um bocado narcisista, uma vez que o seu autor costuma fazer o mesmo que as mouras das lendas faziam nas madrugadas de S. João: estendiam os seus tesouros ao relento; eu, tal e qual, estendo as minhas obras no relento da blogosfera.
Quando criei o blog era para "malhar" na política e exercer uma crítica, tanto quanto fosse necessário, severa. Optei por não fazer uma coisa nem outra; antes, enveredei por aquilo de que gosto - a literatura e os desenhos.
Não quero com isto dizer que não publique sobre terceiros (e, para tanto, aguardo sempre que estes me incitem a isso), não o fazendo a esmo porque, sem ser crítico, não é meu hábito criticar; e sem autorização dos autores e editores, não coloco imagens para as quais estou impedido pelos direitos de autor. Com isto, não brinco.
Depois do arrazoado, tomai lá mais do Santos Costa (como de si disse o Alexandre O' Neill), que são as duas obras com as capas supra. Constituem elas os meus primórdios, pois são, respectivamente, a segunda e a terceira publicação que fiz - a primeira, intitulada "A Revelação", falarei dela depois.
Os "Maltratados, Sedentos e Famintos" foram publicados, em auto edição, em 1976, depois de impressos numa tipografia antiga (com caracteres móveis de chumbo), mas o trabalho saiu perfeitíssimo. Presumo mesmo que foi o primeiro trabalho, no género, que executou essa gráfica de Celorico da Beira, mais vocacionada para jornais. Mas, repito, tomara muitas gráficas de hoje, com os meios que dispõe, fazer obra tão bem acabada como esta.
Trata-se de um livro de contos com 114 páginas de texto, com algumas gravuras, assinado com o meu nome e sobrenome (a única vez em que o fiz deste modo).
As "Crónicas do Arco da Velha" surgiram impressas, em 1985, com uma tiragem de 2.000 exemplares, que foram distribuídos e bem vendidos por todo o País através da Bertrand. A gráfica que executou esta obra foi a, agora extinta, Tipografia Guerra (Viseu).
Trata-se de um livro de crónicas e contos, com 182 páginas. Entre os contos, figura um que venceu o 1º prémio da RTP (1975), aberto através do programa "Os Homens, os Livros e as Coisas", e um outro que venceu o 2º Prémio em concurso aberto pela Junta Central das Casas do Povo (1978), que teve um júri constituído pelos escritores José Gomes Ferreira, Maria Velho da Costa e Álvaro Salema.