sexta-feira, 19 de outubro de 2012

CRENDICES E SUPERSTIÇÕES - ANIMAIS


Tenho vindo a prometer para aqueles que mais se interessam por este ramo da etnografia, a publicação regular de algumas crendices e superstições, uma vez que tenho um livro publicado com um naipe de assuntos desse teor, devidamente arrumados por ordem alfabética.
Chegou agora a oportunidade de deixar aqui algumas (as primeiras) do capítulo ANIMAIS, pois estes tinham na sabedoria e no medo do povo, uma especial atenção.
- Os lagartos são amigos dos homens e as cobras das mulheres.
 
- Quando se deita penso ao gado, o dono não deve permanecer a presenciar o repasto do animal.
- A coruja bebe o azeite das lâmpadas das igrejas.
- Matar um gato preto, acarreta sete anos de azar.
- Não se devem destruir as teias de aranha, por se acreditar que foi uma daquelas teias que ocultou o Menino Jesus aos soldados de Herodes.
- Não se devem matar os aranhiços pequenos, porque são prenúncio de dinheiro.
- Quando um cão uiva é sinal de morte próxima.
- Quando alguém encontra uma cobra a acasalar com um cobrão, deve atirar-lhes um lenço, pois assim não deixará de ter sorte na vida.
- Quando se ouve uma rã cantar, é sinal de bom tempo.
- Matar uma rã causa dor de cabeça. Dizem que s rãs vão diariamente ao Céu para lavarem os pés de Nosso Senhor.
 
- Uma caveira de burro espetada num pau e colocada junto a um campo de sementeira, espanta o mau olhado.
- Uma porca que ande a fazer criação deve trazer ao pescoço fitinhas vermelhas, para se evitar o mau olhado.
- Para não se perderem os porcos que se deitam fora do chiqueiro, mede-se-lhes a cauda com um pau e guarda-se este por baixo da pia.
- Quando se lança o sangue do porco para a panela, a fim de cozer, deve-se proceder como se estivesse a chamar o porco, a fim de fazer crescer a cozedura.
- Não se devem matar as andorinhas, que são as pitinhas de Nossa Senhora.
- Não se deve ter na capoeira pita “galena”, isto é, que cante de galo.
- As cobras vão ter à cama com as mães dos recém-nascidos e metem a ponta do rabo na boca dos petizes enquanto sugam o leite das mães.
- Se alguém tentar matar um sapo e este não fique bem morto, é certo que o bicho vai de noite ter à cama de quem lhe fez o mal.
- Quando se observa um sapo, diz-se que nascem sapinhos na boca. Para o evitar, deve-se cuspir três vezes de cada vez que se pronuncie o seu nome.
- O sapo é considerado o ajudante das bruxas.
- Quando alguém é mordido por um lacrau, ficará sem dores se utilizar na ferida sangue de mulher menstruada.
- Quem tentar matar uma aranha, esta vai de noite ter com essa pessoa à cama.
- Não se devem matar as rãs, que vão lavar diariamente os pés de Nossa Senhor; quem o fizer, ficará com dores de cabeça 
- Para tirar uma cobra que entre na boca de alguém, basta colocar-lhe aos pés uma bacia com leite.
- Quando os animais “aguam”, o dono deve roubar uma folha de couve de sete hortas sem os proprietários saberem.
- Noutra versão, para curar o augamento devem ser roubadas couves em nove hortas.
- Quando a coruja “canta” sobre o telhado das habitações, é sinal de morte próxima.
- Conta-se que a poupa era mulher do cuco, mas que ela andava amancebada com o mocho. O cuco, enciumado, foi bater no cu do mocho e este, enquanto apanhava, ia dizendo – ui, ui!. O cuco, a cada pancada, dizia – no cu, no cu! A poupa, pelo seu lado, apelava – poucas, poucas! Assim é o canto deles.
- É mau sinal para uma pessoa ouvir cantar o cuco enquanto está em jejum.
- Quando algum animal (vitela ou vaca) tiver infecção, dá-se-lhe água de linhaça e grão de linho cozido.
- As “névoas” (feridas nos olhos) das vacas curam-se com mel, aplicando-se este directamente nos olhos infectados do animal.
- As mulheres menstruadas não se devem aproximar dos furões, porque eles morrem. Estes bichos não devem ser tratados por mulheres.
- O bafo das vacas é santo, porque Nosso Senhor nasceu junto de um daqueles animais, o qual O aqueceu.
- Quando se arranca um cabelo pela raiz e se deixa mergulhado durante muito tempo em água, engrossa e transforma-se em cobra.
- Quando se passa por um sítio onde um burro se espolinhou no chão, deve-se cuspir nesse sítio três vezes para não nascerem “trilhaduras” nas plantas dos pés.
- Quem vir uma centopeia e quiser matá-la, para que ela não fuja deve dizer: São Bento te tolha.
- Quando se vê um sapo, deve-se cuspir três vezes, pois ele é venenoso  ; igualmente, quando se pronuncia a palavra sapo, deve-se fazer a mesma operação, para evitar que nasçam “sapinhos na boca”.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

PESSOA & COMPANHIA

 
É já amanhã, em Lisboa, que se inaugura a exposição de Banda desenhada dedicada ao poeta da "Mensagem", com a apresentação da Novela Gráfica "PESSOA & CIA", da autoria de Laura Pérez Vernetti, na casa Fernando Pessoa.
A autora, natural de Barcelona, encontrou na figura e na obra de Pessoa um pretexto para esta sua novela gráfica, editada pela ASA. É também pertinente este trabalho porque traz ao público uma visão daquele que, para mim, juntamente com Camões, é um dos maiores poetas portugueses.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

CINZAS DA REVOLTA

 Da autoria de Miguel Peres (argumento) e de João Amaral (desenho), vai ser editada a obra "CINZAS DA REVOLTA", uma oportuna e corajosa abordagem a um tema que tem sido (quase) tabu nas letras e artes portuguesas, que é a Guerra Colonial.
A inauguração da exposição está implícita e explícita no convite acima reproduzido. Pela minha parte, chamo a atenção para este magnífico trabalho, em que prepondera, para além do argumento de um jovem escritor, o grafismo e a arte de João Amaral, um amigo que partilha a sua banda desenhada no seu blogue, cujo link está na caixa de referências ao lado e que tem publicado obras de referência, distintas pela sua perfeição artística nos domínios da Banda Desenhada.
É uma obra a não perder e eu, com certeza, também não a perderei.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O PRAZER DE ESCREVER; O PRAZER DE LER


Em 1991 publiquei alguns artigos na conceituada revista "HISTÓRIA", então dirigida pelo Dr. Luís Almeida Martins. Um desses trabalhos mereceu tema de capa (acima, na imagem) e  25 páginas no miolo. A peça escrita era dedicada a Bandarra (o patrono moral deste blogue), com um subtítulo que afirmava "o sapateiro que foi além da chinela".

Há quatro dias atrás, sentado à mesa do café com o amigo Dr. Cristino Cortes, professor de Economia, escritor, poeta e crítico literário, falavávamos dos projectos no âmbito da literatura, quer de um quer do outro, quando veio à conversa o facto de eu ser "eclético" nos temas e nas artes que abordo, sem querer preponderar uma determinada arte em relação a outra e, dentro de cada uma, servir vários géneros, escolas e tendências.
A perplexidade salta quando se sabe que eu tanto escrevia contos para a revista "Maria", como publicava Banda Desenhada ou "cartoons" no semanário "O Diabo", publicava peças de âmbito etnográfico na revista "Notícias Magazine" e em " O Independente" , publicava monografias e biografias ou editava álbuns de desenhos de cariz histórico.
Nunca me envergonhei do que fiz, pelo que fiz e como o executei, ao contrário de muitos intelectualóides que, nas esquinas dos cafés ou nas terttúlias dos da mesma laia, abominam em público aquilo que apreciam, às escondidas, em casa.
É certo que nunca fui licenciado e menos doutorado e jamais me passou pelo bestunto usar como créditos estas e outras minhas factualidades. Sou como sou, faço o que sei fazer e o que dá na gana.
É assim que eu entendo a liberdade criativa.


domingo, 30 de setembro de 2012

OS HACKERS DA BD PORTUGUESA


Devo ter chegado a uma conclusão: a Banda Desenhada em Portugal só poderá vingar quando os autores portugueses passarem a assinar a sua obra com nomes americanos ou franco-belgas. Isso aconteceu há algumas décadas atrás, com autores de romances policiais e de “western”, como foi o meu caso, que assinei como Saint Coast em livros de “cow-boys” da colecção “Shane”.

Isto, por quê?
Pela simples razão que um autor português parece, para alguns “hackers” do meio, não ser, como soe dizer-se, santo na sua terra.
Vem a propósito de uma recensão crítica feita por um iluminado que assina como João Ramalho-Santos que, a propósito de “Os Piratas do Deserto”, largou a seguinte opinião (que reproduzo entre comas, para, ponto por ponto, poder contra-atacar).

“Para terminar um livro do qual gostaria mesmo de poder dizer alguma coisa positiva. Sinceramente. É de um autor português, e adapta uma obra de Emilio Salgari, autor de Sandokan, leitura de juventude que não ouso reler para não correr o risco de desilusão.
Mas a única coisa que poderia fazer neste caso era não dizer nada, e isso também não seria muito honesto. Os piratas do deserto de Santos Costa é uma história de aventuras unidimensional extremamente datada e com todos os clichés imagináveis em termos de caracterização de personagens e desenrolar da narrativa. Não se trata de ser politicamente correto ou denunciar uma visão claramente colonialista (e sexista, e classista, e xenófoba, e...). É até bem provável que muitos dos defeitos da BD estejam na obra original, e que alguns interessados formados neste tipo de leituras nem se apercebam, eventualmente fascinados com um retorno nostálgico a histórias onde era tudo a preto e branco, os "maus" eram os "outros", os "bons" sempre "nós".
Mas isso não serve de desculpa, nem torna a história mais eficaz, menos insultuosa, ou, em resumo, passível de ser apreciada, a qualquer nível. Começa devagar, termina abruptamente, não tem um desenho que a resgate (mas nem Moebius ou Manara seriam capazes disso). Muitas décadas após (por exemplo) Hugo Pratt é confrangedor ver um livro de 2012 a tratar o mesmo tipo de tipo de temas de modo tão retrógrado e maniqueísta, sem parecer dar-se conta. A coisa mais positiva que se pode dizer é que a realização tem competência que baste para evitar que Os piratas do deserto se torne ironicamente relevante graças ao milagre do "kitsch". Não é um elogio. Este é um livro cuja edição verdadeiramente não se entende.”

Começa por dizer que gostaria de dizer alguma coisa positiva, afirmando também que o livro em apreço adopta uma aventura de Salgari, leitura de juventude que não ousa reler para não correr o risco de desilusão, que adiante concretiza nessas leituras (pela menos neste título em particular) como uma escrita de visão claramente colonialista, sexista, classista, xenófoba e outros quindins que deixou em reticências, onde os maus eram os outros, os bons sempre nós.
Qualquer uma das etiquetas é aleivosia. A obra não é colonialista porque não se sobrepõe o poder do colono ao colonizado, nem em uma única parte do texto se nota isso; sexista ainda menos, porque o autor veronês sempre dignificou a mulher na sua obra e, nesta, leva-a a ombrear com os homens no poder de tiro e de decisões; xenófoba, só no cérebro do crítico, que deve ter algum comprometimento de esquerdismo vanguardista ou preconceito racista.
Diz que a história é insultuosa. Para quem? Para ele ou para quem lhe remeteu o livro? Que insulto há numa narrativa baseada num acontecimento real, em que há o estigma do judeu em território muçulmano e há tuaregues que perseguiam as caravanas para as saquear? É isto novidade para quem leu na juventude Salgari e teme ficar arrepiado com a releitura dessas obras?
Diz que o livro começa devagar (se acha devagar um livro iniciar por uma perseguição pelas ruas de uma cidade do Norte de África, com tiroteio, confrontos físicos e ameaças de uma população, a que início rápido se quererá referir o “crítico”?) e que termina abruptamente. Termina quando deve terminar. Ponto final. Quereria ele estender a obra até onde? Não lhe bastou o que leu, se é que o leu?
Diz que a história não tem desenho que a resgate, pois nem Moebius nem Manara eram capazes disso. Este “crítico” vai ao ponto de saber até onde podiam chegar as possibilidades artísticas de Moebius e de Manara. E, sem querer, elogia-me também.
Quando ele diz que a edição não se entende, é porque é curto o seu entendimento ou pretende impor nas edições os seus gostos pessoais; mais ainda, talvez porque o seu estatuto crítico é limitado e incongruente, talvez porque o senhor Ramalho-Santos (com hífen, porque soa de outro modo, mesmo sem respeitar o acordo ortográfico), especializado em biologia reprodutiva, devia ter-se dedicado à sua arte e reproduzir nesse âmbito coisa que valha a pena, nanja esta.
O “crítico” podia cingir-se ao trabalho em si, à adaptação e ao desenho; se tem pruridos contra a escrita e o maniqueísmo de Salgari (o que dirá dos super-heróis americanos, que só vêem a América, os bons), devia deixar ao livre arbítrio do leitor esse julgamento. Enfim, para este marintéu, as gerações do séc. XX que leram Salgari foram alienadas por aquela escrita xenófoba, maniqueísta, retrógrada (se estivesse pessoalmente com ele, dizia-lhe quem era retrógrado) ou pela nostálgica banda desenhada a preto e branco, que o fulano parece depreciar.
Enfim, fez a sua crítica, que legitimamente considero feita, concorde ou não. E não concordo. E tenho o direito de dizer porquê, como e à minha maneira, pois discordo. Aquela crítica sempre dá alguma visibilidade ao título publicado, ressalvado o “sítio” onde a fez, uma vez que, tirando ele e eu, poucos a terão lido. Atrás deste pressuposto, para corresponder à sua “canelada”, dei visibilidade ao “escrito”.
Para se rever o pedantismo do “crítico” biólogo, examine-se com bisturi ou escopro de pedreiro, o seguinte pastel de prosa: “Os piratas do deserto de Santos Costa é uma história de aventuras unidimensional extremamente datada e com todos os clichés imagináveis em termos de caracterização de personagens e desenrolar da narrativa.”
Isto é que é nata de escrita, de puro prazer na leitura "unidimensional"; fiquei completamente derretido, sabendo que a história que eu adaptei se encontra "extremamente datada"; fico verdadeiramente babado com os "clichés" imagináveis para caracterizar as personagens. Antes de desenhar qualquer outro trabalho, terei de reler este naco de prosa, para não me esquecer de caracterizar as personagens, recorrer ao milagre do "kitsch" e datar extremamente o desenrolar da narrativa. Como a gente aprende!...

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A IMPRENSA COM A BD


Em Portugal, queixam-se os autores e editores de Banda Desenhada que a imprensa está de costas voltadas para a divulgação desta Arte, que se diz Nona; protestam os bloggers e monografistas da BD que a Nona Arte não é devidamente divulgada nos meios de comunicação social. Se em ambos os casos há razões para esse protesto, por vezes não há razão para protesto algum.
É certo que os jornais omitem muito do que se faz no nosso País, mas há excepções. É o caso desta entrevista que o "Diário de Notícias" me fez e publicou em uma página da respectiva secção, através do conceituado jornalista Eurico de Barros.

Pois bem, salvo algumas excepções, não me posso queixar que a publicação do meu livro passou ao lado da divulgação dos media diários. O jornal "I" deu-lhe uma página e o "Jornal de Notícias" cerca de meia página.

Relativamente à blogosfera - que, em abono da verdade, e graças ao trabalho da Editora - promoveu o lançamento do livro, até hoje apenas vi um blogue dedicar atenção a este trabalho, fazendo uma crítica justa e sincera (bongop-leituras-bd.blogspot.com), o que me leva a crer que não haverá, dentro dos praticantes do culto, grande interesse por tudo o que se passa em Portugal, mesmo que seja pouco.
Não gostam, digam de sua justiça; não lhes agrada, manifestem esse desagrado; acham inoportuno e desapropriado o estilo (preferindo o dos super-heróis que propagandeiam a América), assumam-no desafrontadamente.
O silêncio, porém, não diz nada ou porventura quererá dizer tudo; principalmente, silêncios em torno desta ou de outras obras de autores portugueses (que as Editoras enviam para o fim de divulgação e que preenchem as estantes da crítica), são ensurdecedores, se bem que legítimos. Depois, não "chorem baba e ranho" porque a BD não é divulgada, praticamente está em Portugal desaparecida, o público não adere, o Ministério da Educação repudia-a, o trabalho dos autores portugueses é queimado nos caldeirões de Pero Botelho e por aí adiante.
Sinto-me satisfeito e compensado porque considero que ainda há imprensa em Portugal: que sabe o que se passa no seu País; porque divulga o que se faz no seu País.
Daí este registo.

domingo, 16 de setembro de 2012

O PROFETA BANDARRA EM BANDA DESENHADA


Em 1990 (portanto, há 22 anos) publiquei uma Banda Desenhada dedicada ao profeta, poeta e sapateiro de Trancoso, Gonçalo Anes Bandarra. É um álbum de 32 páginas, em capa dura (hardcover),com miolo a cores e 7 páginas a preto e branco, com uma tiragem de 3.000 exemplares (esgotado, há muito), editado pela Câmara Municipal de Trancoso.

 
Este álbum tem um pouco de tudo: a vida do profeta; a História de Trancoso; lendas; monumentos.
Foi impresso nas oficinas gráficas de Rio Tinto (ASA) e a letragem foi toda feita à mão, no original, onde apliquei directamente a cor.